18 de novembro de 2015 às 16:00
O inferno sou eu
O ano de 2007 começou com um sonho em que caminhava por uma espécie de montanha de cinzas endurecidas, não era uma montanha muito alta, era um caminho montanhoso com trilhas sinuosas entre os montículos por onde circulava um grande número de pessoas - como as romarias aos cemitérios nos dias de finados, por exemplo -, pessoas de fisionomias indistintas que seguiam, em sua maior parte, em sentido contrário ao meu. Subia enquanto elas desciam. Eu pelo caminho de dentro e elas pela margem que ladeava um outro caminho, mais abaixo, no plano. Este estranho caminho ficava do lado oposto da cidade, em relação à minha casa. Em Friburgo.

Seguindo na direção sul, podia observar uma sucessão de tumbas ao longo da encosta e, olhando para seu interior, podia contemplar crânios humanos cujos ossos traseiros abriam-se para formar... algo difícil de descrever, mas era como se a parte traseira destes crânios tivesse sido aberta e os ossos distendidos, esticados, para formar uma espécie de adorno. Digamos, para ajudar, que lembrava algo como um daqueles adornos aztecas de cabeça. Apenas que feito com os próprios ossos traseiros do crânio. É um descrição insuficiente e incompetente, admito, mas o fato é que sempre me intriga a capacidade da mente humana para produzir imagens inteiramente desconhecidas do consciente durante os sonhos. Realmente, não sei descrever o que via!

Após observar algumas dessas tumbas, cheguei em uma casa modesta e ampla, de porta de beira de rua, dessas portas antigas de quatro folhas, onde encontrei meus pais. Eles estavam morando ali. O gerúndio nasce do sonho, onde havia esta sensação intrínseca de transitoriedade típica do gerúndio, mais que de minha vontade (gracilianamente moldada) de usá-lo. Tinha ido visitá-los.

Foi uma sensação deliciosa beijar e ser beijado primeiro por meu pai, ao corredor da casa, a meio caminho da cozinha, e depois por minha mãe, vinda de lá. Meu pai estava circunspecto, sereno, parecia bem, minha mãe estava alegre e bem-humorada, reparei, porém, que havia um hematoma em seu tornozelo, creio que o direito. O problema é que não havia grande definição de seus pés nem visibilidade, eles se perdiam nas imagens do sonho sem que eu conseguisse precisá-los. Perguntei-lhe o que havia ocorrido e ela tentou minimizar com um sorriso nos lábios durante a explicação, disse que havia se machucado de um modo que não me recordo, lembro-me apenas que aquilo me preocupou, que o fato de ela ter-se machucado, havia sangue pisado em seu tornozelo, isto eu conseguia distinguir, aquilo me fez sugerir que eles voltassem a morar em nossa casa, do outro lado da cidade, onde eu próprio estava morando agora. Gerúndio.

Eles não ofereceram resistência à sugestão, pareceram mesmo simpatizar com ela, não obstante não houvesse também maiores entusiasmos. Súbito, ouvi um barulho na porta da frente, não sei se bateram, fui atender, estávamos os três na sala, e quando abri a porta um bando de mendigos saltou para dentro e invadiu a casa, espalhando-se rapidamente pelos demais cômodos. Fomos pegos de surpresa e acordei, sobressaltado, o coração disparado, o fôlego entrecortado. O sonho acabou ali.

Sua delícia ficou por conta do desfrute da presença de meus pais, beijá-los, sentir-lhes, estar com eles, respirar sua atmosfera. Cada pessoa é uma presença única, insubstituível e incomparável, do que a morte nos priva para sempre, até que nos priva, por fim, de nossa própria presença. É uma dama sedutora, mas que não se pode chamar de gentil...

Foi muito bom rever meu pai e minha mãe, revê-los juntos - eles constituem para mim uma unidade poderosa, irradiadora -, embora houvesse um silêncio excessivo nos lábios de papai - um homem falante pelos cotovelos quando alegre - e uma sombra qualquer no ambiente daquela morada modesta que a alegria contagiante dos olhos de mamãe procurava compensar com seu sorriso iluminado e vívido. Havia um constrangimento qualquer da parte dela, que não sei precisar, mas que senti, por vezes, no balé de fuga de seus olhos...

A sensação que tive, depois, é de que ali era o inferno. Talvez por conta do caminho de rochas vulcânicas, a procissão de transeuntes indistintos e as catacumbas abertas com seus crânios ornamentados ao fundo. Mas, perguntou a minha mulher ao narrar-lhe o sonho, na manhã seguinte, o que os seus pais fariam no inferno. Não, exclamou!... Talvez, respondi sem muita convicção, o inferno não seja tão terrível quanto diz a propaganda oficial e estar por lá não seja, como também se supõe, uma prova inconteste de graves, imperdoáveis pecados. Pode ser, especulo agora, que o inferno constitua apenas o resultado de como vivemos as nossas vidas, sem que isto implique qualquer juízo de valor.

Mais ou menos como uma linda criança, livre de qualquer culpa ou responsabilidade, nasce em meio às chacinas tribais, minas terrestres, fome e doenças atrozes que consomem a infância africana e também de outras partes rudes do doce planeta, não há muito o que dizer a respeito. Vai ver é só isso o inferno. Um destino final que apenas reproduz a jornada do caminho.

Quanto aos meus pais, eu não posso dizer nada a respeito de eles estarem ou não no inferno e porque, por certo que não os poria lá, se dependesse de mim (apesar de que, bem dizer, aquele sonho era meu)... Mas, quanto ao demônio que habita em nós, sim, tudo o que ele mais deseja é prejudicar-se a si mesmo e mesmo sua infelicidade ainda depende do outro. E é um inferno, isto!
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