20 de novembro de 2015 às 16:00
O fomento da autonomia intelectual
O trabalho literário demanda uma certa tranqüilidade para sua perfeita conclusão de que, pessoalmente, não desfruto. Vai borrado o copião. É o que posso, no momento. Depois, piora!... Legitimidade e reconhecimento, em alguma medida, para fora das hostes familiares e círculo de amigos - onde desfruto, pessoalmente, acolhimento ímpar -, diria que é essencial para prover ao escritor esta tranqüilidade mínima que acuso indispensável, uma tranqüilidade mais de ordem espiritual, até, não obstante o sustento que advém do próprio trabalho seja a alegria - não raro intangível - por que anseia a maioria daqueles envolvidos de alguma forma com a atividade artística.

Tais legitimidade e reconhecimento, confundidos por vezes com a gratuidade da fama ou mesmo a leviandade de um prestígio oriundo mais de relacionamentos sociais construtivos que do trabalho criativo em si, são fundamentais para que a obra de arte - literária, sobretudo, por sua natureza digressiva e de longo prazo de maturação - reúna as condições necessárias ao êxito, entendendo-se por êxito, aqui, não o sucesso de público e/ou crítica, mas antes a consecução dos objetivos artísticos do próprio autor no ato de sua realização - tal modo legar ao tempo histórico um testemunho pleno de autenticidade, como o são a maior parte dos testemunhos que perduram na já longa história da literatura universal. Trapaceia-se o presente, já a história é bem mais difícil de fazê-lo. Senão impossível.

Ao tempo que se debruça sobre seu torrão natal - na célebre fórmula de Tolstoi [1828-1910] -, o escritor, igualmente, sabe que nenhuma narrativa pode resumir-se exclusivamente a si, o que a diminuiria mesmo aos próprios olhos e de seus interlocutores locais. Contudo, este esforço final de percepção do todo na parte mínima de seu universo de origem requer do escritor algo que o transcenda em suas próprias condições de trabalho, isto se desejamos que entenda sua atividade sobretudo como ofício, profissão, meio de vida - mais que sina, destino, missão ou, até mesmo, castigo por seus desvios de sensibilidade.

Vale lembrar, já que citei o russo, que Tolstoi e Dostoievski [1821-1881] eram escritores profissionais, viviam do ofício. Muita vez, em papos-de-aranha, mas viviam! Isto é, vendiam livros ou recebiam por sua publicação prévia - em capítulos - nos jornais da época. Isto, na Rússia do século XIX. Vender livros, até hoje, está fora de questão na vida literária - e econômica - do escritor brasileiro de sucesso. Algo falha, pois não? Consideradas, obviamente, as exceções à regra e que são, até, cada vez mais numerosas. Insuficientes, porém, para modificar a, digamos, norma culta da língua - se é que me faço entender. Repito, algo falha, pois não?

Nesta medida, tudo que um escritor precisa é não mais do que um empréstimo a fundo perdido a que se possa oferecer por garantias creditícias os eventuais direitos autorais decorrentes da comercialização das diferentes obras publicadas. Nada de patrocínio nem subsídio. Esse tipo de ajuda deixa, depois, os pentelhos do sponsor nos dentes do beneficiado e marcas abundantes de sevícias ao longo da obra. Não bom, não bom!

Basta um simples empréstimo de risco como fazem habitualmente os bancos de fomento para as grandes empresas e seus grandes [e não menos mirabolantes] projetos. Que muita vez, como a maioria dos escritores, também não dá em nada. Cabe o mico ao grande investidor. Nas economias periféricas, leia-se o Estado. É a regra do sistema! Por que não aplicá-la em favor também da autonomia financeira de artistas e intelectuais em geral? Por que não estender o benefício da dúvida - a mesma que cerca uma represa, uma estrada - aos tocadores de violão e fazedores de versos, como tantos por este Brasil varonil da beleza e da indigência engendradas? Por que só aos empreiteiros e rentistas concedem-se os privilégios do risco de cassino que é a vida econômica no capitalismo e a nós, barrigas-de-cobra, só nos deixam os bingos viciados? É certo que a homem algum se pode assegurar seu próprio êxito, mas o que aqui se reivindica é apenas o direito do risco - ou, por outras palavras, a oportunidade -, o mesmo que está posto para grandes industriais, sempre em nome da geração de empregos.

Pois também o meu trabalho - tal qual as empreiteiras - gera empregos imediatos aos magotes, sem contar que também estende-se no aro do tempo como patrimônio artístico do país e, mais, da própria Língua Portuguesa. Somos um negócio! Sim senhor! Somos uma empreitada! Somos geração de emprego e renda! Carajos! Por que continuamos, a maioria de nós, sendo tratada com pedintes leprosos de quem se deva afastar com discreção e pressa? Não se tratam assim aos tomadores de empréstimos impagáveis [nos dois sentidos!] dos principais bancos de varejo do país! E, no entanto, eles não honram os seus compromissos financeiros tal e qual os aposentados endividados pelo logro do crédito fácil para pobres. E os doidos somos nós?!

Não há produto de arte bem trabalhado no mundo que não dê o devido retorno econômico-financeiro, até porque conta a favor a natureza, para usar uma palavra e tanto, perenal do produto. Mais dia, menos dia, um livro, um disco, uma peça de teatro se pagam. É um negócio certo! Não é verdura que estraga! Não é tomate que apodrece! Antes, qualquer obra de arte, a partir de determinado patamar mínimo de qualidade estética, tende a crescer com o tempo. Isto é fato plenamente observável e a olho nu. Contudo, nenhum destes produtos progride sem sua adequada implementação e necessária promoção continuada, até uma criança de hoje em dia, que nasce com um mouse na mão, entende isso que estou dizendo, catso! É o óbvio purulante! [Purulento e ululante, se é que me entende]

Eu, pessoalmente, não quero um tostão de gruja de instituição alguma. Tenho uma avaliação positiva da potencialidade econômica do meu trabalho. As dificuldades financeiras que muitos artistas enfrentamos para realizar nosso trabalho não é outra coisa senão o resultado de uma mentalidade vigente nas relações econômicas da produção artística brasileira que, por opção política, visa à subserviência do profissional do ramo. Seja ao próprio governo de ocasião e seus cofres gelados. Sejam às corporações públicas e privadas que manipulam sobras de verbas publicitárias em favor de cabeças coroadas e medalhões [deixando de lado os moluscos e mexilhões, por óbvio!]...

Em sessenta anos de indústria cultural no Brasil, considerada a produção fonográfica partir de Carmen Miranda [1909-1955] como o marco inaugural deste processo, podemos contar na mão esquerda do Lula aqueles artistas oriundos do povo que ficaram tão ricos quanto os nossos capitães de indústria e banqueiros. E em mãos de menos dedos ainda podemos contar os que lograram efetiva autonomia artística e intelectual para construir uma visão particular de mundo que passe algumas milhas siderais que seja dos dois russos acima citados. Na América, pelo menos, os artistas ficam ricos de verdade. Não são apenas empregados de luxo de concessionários de serviços públicos. Ricos mesmo. Aqui, não. Somos todos, em medida variada, tributários de Assis Chataubriand [1891-1968] e, depois, de Roberto Marinho [1904-2003] e assemelhados. Ou é isso ou é o serviço público, mesmo o federal, sem exceção do Itamarati. Algo falha, pois não?

O crescimento da indústria fonográfica brasileira, senão produziu fortunas consideráveis, ao menos assegurou considerável parcela de independência financeira e intelectual para muitos de seus expoentes. O que é um mérito a ser considerado e um modelo, talvez, a observar com atenção. No mais, ainda estamos por encontrar os mecanismos reais de financiamento da cultura no Brasil, um país que é uma festa! De norte a sul, leste a oeste. Enquanto patrocínios e subsídios servirem à compra de apartamentos para intermediários beneficiados mais que à redução do preço final dos produtos oferecidos ao público e sua disponibilização para camadas da população que de outra forma não teriam acesso a eles, a coisa não sai do lugar. O mercado consumidor não cresce o que podia. A economia não fatura o que devia. E os artistas simplesmente têm de renunciar à sua autonomia.

Bem, agora, eu vou botar a minha calça de brim azul desbotada, vestir uma camiseta de malha branca com alguma daquelas estampas de meus tolos poemas, mais o tênis All Star vermelho [ninguém escapa a si mesmo, é fato!] e já estou a caminho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Largo da Carioca, a fim de convencer os homens-de-preto de que não quero dinheiro dado, apenas emprestado. As garantias? Meus direitos autorais patrimoniais até o último tostão devido, que tal? O que você acha, eu passo da porta?
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