22 de novembro de 2015 às 00:00
Ensaio da inautenticidade (para Fernando Pessoa)


(E digo isto sem qualquer pretensão
de que seja útil aos que hoje passam pelo mundo
quando, então, já deixei o terreno do planeta
rumo ao desconhecido. O nada provável da razão
ou a fé impalpável do espírito)
A pior coisa que senti
Foi a total impossibilidade de acreditar no outro
Uma vitória completa e arrasadora do Mal:
Destilar desconfiança
Plantar inimizade
Vivi próximo demais de demônios astutos
Capazes de surrar o justo - isto é, o tolo
Sem deitar-lhe marca alguma (técnica da
Polícia carioca legada a todos os mundos)
Apanhava-se, por vezes, nesta vida
Apenas pelo entusiasmo do sorriso
Ou a espontaneidade da tesão
Via-se morrer e matar
Com igual indiferença
Estávamos todos
Demasiado próximos
Do que desejávamos bem distante:
O inferno diário de terror e assassinato

A sombra que toldava o brilho
Do paraíso tropical, sendo o
Paraíso tropical a cidade do Rio
De Janeiro, descia dos morros, a sombra,
Infestada de pequenos e pobres diabos
Legião de enjeitados
Vara de loucos endiabrados
A gritar com histeria e espanto

A pior coisa que vi foi a melhor cidade
Da América do Sul cair escrava do terror
Submissa ao narcotráfico, risonha
E ensandecida com sua própria perda de sentido
Alguém, em algum momento,
Arrancou-lhe a alma, como se lhe
Fizesse doar em vida os órgãos prometidos
Arrancou-lhe, assim, a alma
A ferros e fórceps, à força de golpes duros,
                   [muito duros
A desconfiança que contamina a todos
Vem do fundo dessa alma arrancada
Do vazio que habita em seu lugar
Na falta de um sentido para esta vida
De certa forma desperdiçada
Beleza desperdiçada
Graça desperdiçada
E viver, assim, desconfiado
No dia a dia
É um sentimento terrivelmente monstruoso
Que nos exclui, isola, separa
Ali, o mundo sem frescuras
Aqui, você, enlouquecido
Ali, o mundo, guardadas as devidas proporções
Aqui, você, a inventar a verdade
                   [na ausência do plausível
O que há conosco, eu me perguntava
                   [todas as manhãs
Sempre, todos os dias
O que há conosco, por que não reduzimos
                   [o ritmo para ver a banda passar
Quem foi que disse que devemos morrer
                   [sem ter visto a vida?
Mas, estas idéias e percepções
Elas não chegavam a se levantar da cama
Não havia como
Estávamos condenados, escravos modernos,
A mentir sobre o tempo como se fôssemos viver
                   [para sempre
Sabíamos que estávamos mentindo
No entanto, por algum estranho motivo,
Preferíamos acreditar, ou fingir acreditar,
Na necessidade real de fazer com que as coisas
Fossem mais complicadas do que o estritamente
                   [necessário
Em verdade, nenhum de nós
Sabia mais o que era o estritamente necessário
Desde que inventáramos a necessidade
Fabricávamos necessidades
Produzíamos necessidades
Tínhamos montado um incrível circo de necessidades
No paraíso artificial das dificuldades
Sob a lei geral das infelicitações que nos rege
                   [e governa há sessenta séculos
E, apesar de tudo isso
No íntimo, desconfiávamos, secretamente
De que havia uma forma de viver a vida
De modo simples e verdadeiro...
Eu perdera inteiramente o meu
Se é que alguma vez o tivera, por momentos
Desconfio que não
Desconfio que nunca fui mais do que
                   [um amontoado de gestos de imitação
Sujeitos diversos, inspiradores por certo
Somaram-se, atulhados
Em corredores e quartos de minha presença
Como a compor diferentes personagens
                   [possíveis à frente do espelho
Para o eu que sou e que constantemente
                   [evade e se esconde
E como todos os demais
Também eu desconfiava
De que não houvesse uma justificativa plausível
Para a vida relativamente estúpida que levávamos
                   (Apenas rabo e costela!)
E também desconfiava
Da existência do que é autêntico e espontâneo
Comecei a procurá-los por aí
                   - o autêntico e o espontâneo
Figurinha difícil, essa dupla!
Podem crer! Estive em seu encalço
Por muitos e diferentes lugares
Por diferentes e muitos lugares
Em seu encalço estive
E se posso dizer que a achei, a tal dupla
Foi uma vez no colo siliconado de um travesti,
                   [de nome Geórgia
Havia algo de autêntico e de espontâneo
Em sua artificialidade natural...
Se penso nos enfeites com que índios de diferentes
Tribos e povos de diferentes culturas
Alteram suas fisionomias
                   (sabe-se lá porquê ou mesmo sem
                   qualquer motivo)
A busca da autenticidade e da espontaneidade
Perde por completo o sentido
Ser humano é ser artificial, corrosivo
Ser humano é ser solitário e gregário
                   [a um tempo...

Não estou oculto na minha dor!
Ela me atravessa
Mas, a transparência que transpareço
                   [é minha
É fruto de meu esforço
Para aprender o mundo
Entender a vida como conta de resto
Palavra pela metade
Meia verdade
Nada é autêntico!
Nada é espontâneo!
Tudo busca uma explicação no leito de si mesmo
Toda dor é vã sem a determinação de conhecer
                   [o prazer e o amor
A infelicidade do mundo de meu tempo
Estava em desejar o prazer sem amor
E obter, por oposto, o amor sem prazer
Muitos vivemos para este impasse
Enquanto outros tantos desmoronamos
                   [em obsessões hedonistas
O prazer se havia reduzido ao sexo
O sexo à tara
A tara por sua vez se havia reduzido à violência
E a violência, esta, ao terror
A arrancar a todos a tranqüilidade da alma
A privar a todos a confiança
A negar à vida sua vocação ao gozo

Sei muito bem a fraude que sou
Conheço as minhas mentiras e calamidades
As mazelas, as misérias
Sei que não tenho como estar livre delas
Todo o meu tempo de vivo
Arrastei o sapato de ferro da minha educação
Da personalidade altiva do codeiro montês
Do estorvo do temperamento ensimesmado
Das limitações do conhecimento fragmentado
Dos condicionamentos afundados na carne,
                   [grampos mentais
Das incapacidades... Ah? Basta!
Não sou apenas incapacidade
Condicionamento, ignorância
Temperamento, personalidade, educação
Sou a soma de tudo isso
Na vertigem do momento
Posso surpreender, inesperar
Posso criar a partir de nada e tudo
Posso explodir em plena sala
Como uma supernova que nasce de repente
Travestido em mim mesmo
Um sujeito-bomba de si mesmo
Ou até mesmo um homem-bamba!
Exposto à minha própria inautenticidade
Entregue à minha própria artificialidade
Impuro, imperfeito, equivocado
Nada espontâneo!
De qualquer forma, interessado o suficiente na vida
Desinteressadamente interessado
                   (o pior defeito)
Sem motivações suficientes, no entanto
Para desejar o (necessário) mal do outro
Tão somente, intrigado com nossa enorme capacidade
                   [de discórdia
Filhos do dissenso
Babel dos tempos
Vivíamos, ali, em meu tempo sobre a Terra
A mais plena desconfiança entre os homens
Não obstante dormissem de portas abertas
                   [os canadenses
Na melhor cidade da América do Sul
O medo era nosso pai e nosso companheiro
Seguíamos assustados para a tarde
                   [clandestina de amor
Enquanto tiroteios incertos
Podiam pipocar por todo lado

As pessoas se haviam especializado
Em reclamar da falta alheia
Enquanto elas próprias não eram capazes
                   [de compreender
Por que se sentiam sós com suas ausências
Porquanto estavam ausentes primeiro de tudo de si
Como dizer, com todas as letras,
Eu amo você?
Como dizer, com todos os efes e erres,
Eu quero você perto de mim?
Como dizer, direto, na cara,
Não saia do meu lado!
Não me abandone!
Não me deixe só!
Como gritar para fora esse grito
Que não cala dentro do peito?
Onde gostaríamos de viver por todo o tempo
Viver apenas e a partir dos olhos do coração
Sem mentiras nem trapaças
Como seria sensacional
Se tivesse acordado todos os meus pobres,
                                    [breves dias
E desfrutado a certeza de não estar mentindo
                                    [primeiro de tudo para mim
De estar demonstrando o fundo de meus
                   [sentimentos
No leito de um rio límpido, livre de
                   [emporcalhamentos
Como seria espantoso
Sair de casa para o convívio com um mundo
                   [igual
Franco, irreversivelmente franco
Franco até demais
Doloroso de tão franco
Um mundo onde não precisássemos
                   [esconder o que sentimos
Nem exibi-lo
Apenas, viver a partir desses sentimentos diretos,
                   [plebiscitários
E tratá-los à luz de uma profunda
                   [alegria de viver
Essa utopia não me largou por todo o tempo
                   [em que tive esperanças
A utopia de um homem alegre
A utopia de um homem feliz
A utopia de um homem justo, possivelmente tolo,
                   [também
A utopia de um homem em paz com seus
                   [sentimentos
Risonho com seus companheiros
Doce com as amadas
Amoroso com os filhos
Cuidadoso com os pais

Não fui nada disso
Nada disso fui nada!
Não desfrutei nada disso
A vida foi para mim senão aresta, desencontro
Perda, perda e mais perda!
Tem uma perda no meio do meu caminho
No meio do meu caminho tem uma perda!
Neste sentido, sim, fui um perdedor
E em mais nenhum outro
De resto, guardei no peito a dor profunda
Sorri como recomendou o poeta latino
Sem me conseguir fazer compreender aos demais
Fui fraco, fui vacilante
Tíbio, fui louco, estive louco
Cego, fui usado, usei, fui lesado, lesei
Nada disso, no entanto, teve importância
Nem o mal que fiz
Nem o mal que me fizeram
Porque nada foi definitivo
E quanto a mim, nada me foi capaz de fazer morrer
                   [por dentro
Permaneci vivo por todo o tempo de minhas
                   [muitas e sucessivas mortes
A cada vez que perdi
Eu morri para nascer de novo
E mais uma vez tentar o possível e
                   [o impossível
Na direção daquilo que vim a ser
E que se foi mostrando aos poucos,
                   [bem aos poucos e mesmo a mim
E que fui descobrindo e admitindo
                   [como aquilo que sou
O irremediável em mim
O irretirável em mim
O inesgotável em mim
Como estas palavras laudatórias
Que não se cansam de juntar, explicáveis
A título, presumo, de salvar do tédio
Essa minha existência torpe de escritor do caos
Suposto poeta para si próprio
A cuspir sociologias improváveis
Acerca de turbulências na epiderme das cidades
Onde câncer de pele passa por mancha de sol
Algo de profundamente doentio, deletério
Desenvolve-se, silenciosamente,
                   [no interior da pele das metrópoles
Especialmente, nesta
A melhor cidade da América do Sul
Algo que, como câncer, guarda-se em silêncio,
                   [sem sintomas, traiçoeiro, aflito
Silêncio, apenas
O silêncio infame da rotina
Silêncio dos dias
Silêncio das horas
Algo cresce por trás desse silêncio
(E não é um pênis intumescido, definitivamente!)
Algo que de modo lento germina
E se prepara para brotar, bem aos poucos e lento
Uma rosa de medo
Um botão de desconfiança
O perfume da traição
A textura da incerteza
A solidão da dúvida

São essas populações desalentadas
Os protagonistas às pressas
De um drama que quotidianamente
Encena nossas piores armadilhas
Contra nós mesmos
São essas populações, vítimas do terror
                   [e do abandono
O semblante que não se quer esquecido
                   [em nossas mentes
Sempre que somos instados a pensar
                   [o mundo
Ou, pensar no mundo
Ou, ainda, sempre que somos chamados
                   [a pensar com o mundo
São essas vítimas da necessidade
Que não se calam mesmo aos olhos frios
                   [do poder
E dizem aos quatro ventos:
Também podemos ser melhores ou piores
Dependendo de nossas chances e oportunidades
É preciso admitir que o ladrão não nasce feito
É preciso entender que não se muda um homem
Sem mexer em sua terra e sua gente
É preciso aceitar que a vida nos transborda de sentido
E que captá-lo não é tarefa que nos caiba
 

Resta-nos viver!

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