06 de setembro de 2017 às 16:00
O pessimista técnico
Na verdade, sempre detestei tudo o que deve ser feito com um objetivo estritamente determinado, sempre considerei menores as ações desta natureza ou ordem e elas nunca, de fato, significaram algo para mim. Se você me disser Arnaldo, vamos lá, temos de fazer tal coisa para arranjarmos tanto de grana, o provável é que você não possa contar comigo. Não é do meu feitio, não me orgulho disso nem o estou dizendo para parecer um cara, sei lá, desprendido, não se trata disso, apenas que as coisas comigo nunca funcionam deste modo.

Estou comprometido desde sempre mais com a espontaneidade do acaso e a autenticidade da deriva do que com tudo aquilo e qualquer coisa que nos leva a construir objetivos demasiado determinados. E estreitos. Sinto a vida sobretudo como gozo, assim entendo o seu milagre e função, não me comove nem um pouco tudo o mais que implica em renúncia à alegria de viver em função de objetivos a alcançar e digo isto não obstante as dificuldades inúmeras e tremendas com que mais e mais me vejo a braços, à medida que envelheço, imerso que estou em mais confusão e emaranhamento do que o razoável.

Nem com todas as limitações, porém, sei renunciar ao entendimento de que a vida é um átimo de pura satisfação com seus limites, amplamente superados por pequenos gestos de grandeza e beleza, únicos antídotos possíveis que reconheço para o tédio frenético a que se resume a nossa patética vida social, circo de pequenos, conformados horrores domésticos e alguma, muita sandice pública, show de exibicionismo. E violência, claro!

Contudo, nem a grandeza nem a beleza dos pequenos gestos estão por aí dando sopa, a maioria da população é feia, por maltratada, e a maioria de nossas atitudes diárias, pequena, mesquinha, apegada. E é com esse mundo, apequenado, que vamos morrendo aos poucos, a cada dia, atrás por vezes de um sorriso avistado em meio à multidão ou à espera de que um filho nos surpreenda com algo mais do que seus queixumes acerca do amor que não recebeu.

É tão difícil que tais coisas se sucedam como ganhar nos cassinos, mas é assim que é para mim: vivo da expectativa de ser surpreendido em meu pessimismo por algo de inesperado que venha de dentro de mim mesmo e das pessoas com quem convivo. Geralmente, nada acontece. Mas, não custa acordar todas as manhãs disposto e interessado em perder essa aposta que continuamente faço contra minha própria experiência de vida, à luz das piores e mais sensatas conclusões.

Como nos cassinos, aposto sempre para perder, mas quem foi que disse que consigo?


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