07 de setembro de 2017 às 16:00
De coelhos e elefantes
Além da questão da solidariedade planetária e a percepção de que estamos, definitivamente, situados em uma aldeia global - como preconizava Marshall McLuhan [1911-1980], já nos anos 1960-1970 - essas tsunamis na Ásia levantam, ao meu ver, duas outras questões relevantes e entrecruzadas, uma referente aos limites do nosso conhecimento científico e outra quanto aos próprios limites da condição humana em seu relacionamento com o habitat. Por isso, estou publicando essa nota de O Globo de sábado, 01/01/2005, acerca da sobrevivência dos animais selvagens na região atingida. Intrigante.

Nos dias que sucederam à megatragédia, geólogos e outros especialistas, instados a comentar o fenômeno, disseram às câmaras de tevê que seria impossível prever o evento com precisão, única maneira por nós [humanos] concebida para previnirmo-nos de seus efeitos e conseqüências.

Então, a gente se pergunta, mas que raio de conhecimento científico é este que produzimos, a milênios, incapaz de dar resposta eficiente para nossa sobrevivência, enquanto nem mesmo um coelho - e não me estou referindo aos protagonistas de John Updick - afogou-se nas tsunamis que varreram - com vassoura dágua - a Tailândia?

A gente se prepara para pousar, por sondas, em Saturno, mas não é capaz de ouvir o rumor das placas tectônicas, em seu balé primitivo, titãs de fogo em palco de magma, tal como o fizeram os elefantes tailandeses? Que tipo de ciência é essa que produzimos, afinal? Serve a quem? A dos elefantes, serve a eles!!! A quem serve, tirante a comunidade científica e seus belos filhos criados a Sustagen, a quem serve, de fato, uma ciência que fica na rabada de um monte de coelhos e elefantes, diante da tarefa de prover a sobrevivência dos indivíduos de sua espécie?

Por certo que nem coelhos nem elefantes possuem sofisticados centros sísmicos para detecção de deslocamentos tectônicos no fundo dos oceanos com sistemas de alarme para suas populações litorâneas (se tivessem, garanto que não deixariam de avisar ao vizinho por ele, abre aspas, "não pertencer ao sistema"... tsk!...), mas, de qualquer forma, nem uma nem outra espécie perdeu sequer um único indivíduo na tragédia da Ásia!

Será que isso não nos diz nada acerca das opções epistemológicas [genocida, autofágica] e seus pressupostos, que fazem a ciência como nós a entendemos nos últimos cinco séculos, a saber, a serviço de interesses econômicos mais do que em função da sobrevivência e bem-estar da espécie? A verdade, lamentavelmente, é uma só: a preservação da vida do indivíduo não está no centro de nossas motivações sociais. Mas, são os indivíduos que vivem! Assim como coelhos e elefantes.

                   * * *

Agora, mude radicalmente o foco do seu pensamento, leitor, e volte os olhos para os 8% de Mata Atlântica que restam no Brasil, onde estão 80% da diversidade da flora do planeta, e responda-me se já não estamos à beira de igual desastre, sem que nada, ou muito pouca coisa, esteja sendo feito, de fato, para ampliar as áreas de reflorestas e garantir a nossa sobrevivência como um todo? O que estamos esperando, uma catástrofe? Mas, carajos!, ela já aconteceu!...[1º/01/2005]


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