08 de setembro de 2017 às 16:00
Sobre o mármore ensangüentado
O grande truque do capitalismo é sua promessa empreendedora para poucos combinada à dificuldade brutal de realização por parte da maioria. Neste desvão estragam-se nossas vidas, azedam-se os humores, diluem-se as esperanças.

Você olha um emprego de administrador de teatro, você quer ser dramaturgo, você supõe que naquela função estaria de certa forma mais próximo de vir a exercer a sua profissão eletiva, isto por conta do contato que naturalmente ali se estabelece com a gente do ramo, então você aceita o cargo e nele entreva até a aposentadoria a sua pobre vida, que corre feito xeirume, fede a sonhos, recende a utopias que foram banalizadas pela mídia, traz nas entranhas odores da juventude arruinada por responsabilidades com a vida e os outros que não necessariamente incluem você mesmo e o que você sonhou para si por instantes.

Você é músico, é italiano, exilou-se voluntariamente no paraíso tropical do Rio de Janeiro para uma longa temporada de amor pela vida no inferno, sem a medida do sapato de ferro europeu, você é bom para caralho naquilo que você sabe fazer de melhor, tocar guitarra de jazz, música instrumental. Então, alguém lhe contrata como gerente de estúdio de dublagem e lhe paga superbem por isso, você tem mulher e filha e mais um monte de contas para pagar, além disso, você tem vergonha na cara e não quer depender de terceiros - muito menos no quarto! menos ainda na cama! - e o que acontece? O melhor que você sabe fazer transforma-se em um hobby abominável que consiste em ficar gravando em um superequipamento doméstico músicas que jamais chegarão a quem de destino porque não rolou uma coincidência entre intenção e acaso na sua vida e o que você tinha a oferecer aos ouvintes, à sua mulher e à sua filha simplesmente acabou por se resumir àquela arte sem gozo, de alta tecnologia. Toda a sua técnica de digitação, toda a sua mumunha no braço do instrumento convertida em elegia solitária ao egípicio deus Atum (que, ao descabelar o palhaço, criou o mundo)...

O grande truque do capital game consiste em manter legiões de desavisados como eu aturdidas atrás de chances que não vêm nunca e nunca virão porque elas [as legiões] são carta fora do baralho e não sabem (ou não querem saber).

Inútil todo o seu trabalho, foda-se que é bom, este jogo não é para você, cidadão, há algumas exigências básicas a ser atendidas, mas, nem mesmo essa tábua de obrigações a cumprir está definida, o jogo envolve o desconhecido, o mistério e - principalmente - o ilícito.

Depois, podemos até ser bonzinhos e legais, mas antes disso é preciso passar pelo espremedor de colhões ou o extrator de grelos e deixar por lá, sobre o mármore ensangüentado, algo da dignidade intrínseca ao ser humano que tanto mal faz aos negócios. E vice-versa.

O sistema está baseado no êxtase de poucos em face da abstinência de muitos. A mais-valia de que falava o velho Marx [1818-1883] é, em última instância, o prazer. É preciso subtraí-lo a outrem para desfrutá-lo em plenitude e incompletude a um tempo.


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