12 de setembro de 2017 às 00:00
Delito de corpo do poema
O poema que me sorri na tarde
Com a carne dos sonhos nos dentes
É feito de brisa e sol
E alguma tepidez no ar
É um poema que me ensina
A sucumbir e sobreviver a um tempo
Perquirir as perguntas mais difíceis
Que o tempo todo me faço
Sem o agrado das respostas
Todas cortantes, frustrantes
Lacerantes, mesmo lancinantes, às vezes
Quando a noite cai
Sem o consolo mínimo de uma bebida
Ou a carícia inovadora da mulher inesperada
(Por que não mais espero)

Este poema na tarde
No interregno de tudo
Que preciso alcançar para ser eu mesmo
De negativa em negativa
De negação em negação
Este poema, enquanto espero a redenção dos juros
Este poema revira-me
Aos próprios olhos
Sem esgar nem piedade
Para o exame de corpo de delito
Das escoriações muitas e várias
Que desferi, cruel, ao longo da carne
Pisada a pele

Hesito face ao êxito
Habituo-me facilmente ao hábito
Quero seguir anônimo
Nas veias de um quotidiano anódino
Rumo ao rio do esquecimento
Morrer lento, sem cor
Esvai-se-me o entusiasmo
Os dias passam
As horas escorrem ao seu abismo último
No entanto, das entranhas, afinal
Um poema se levanta
Como alento e muleta
Apoio e escada
Para os pés na escarpa do caminho

Não há razão para tanta lágrima
Que não valha um riso
Não há tristeza tanta em um coração
Que não pague um grito
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