29 de novembro de 2017 às 16:00
Rosas, verdes rosas para uma cidade maravilhosa
O Rio é uma cidade que nos cobra um preço demasiado alto por sua inacreditável e extasiante beleza. Outro dia, assisti ao Vicky Cristina Barcelona, do Woody Allen, onde brilha a cidade espanhola por seu descomunal encanto tomado das obras de Gaudí, mas também, eu diria, pela sensação de tranquilidade que passa e, ainda, pela falta de mendigos pelas calles. Pelo menos, no filme!

Dói ir comprar o pão de manhã na padaria e já dar de cara com um menino preto ou pardo, mas tem também branco, não se deixe capturar pela questão étnica, dormindo sobre um pedaço rasgado de papelão, na esquina do prédio ou mesmo vários deles descaídos ao longo das calçadas do Rio.

Muitos cidadãos como eu, que não são necessariamente más pessoas nem voluntários da boa-vontade, apenas mortais pagadores de impostos, simplesmente não sabem o que fazer, além de enviar algum donativo para alguma instituição que atue na defesa e no amparo dessas infância, adolescência e juventude desamparadas, vivendo (glup?!) à base de crack pelas calçadas, numa análise fria, apenas esperando a morte passar. E ela passa.

A caminho do dentista, outro dia, cruzei com dois corpos desacordados na calçada da minha rua, sobre um pedaço de papelão que lhes servia de catre a céu aberto, livre prisão, digamos assim. Os rostos de ambos desgrenhados por barbas inacreditáveis. Inacreditáveis não como se diz às vezes pelo tamanho gigante, mas pela aparência repugnante mesmo. Pés imundos, unhas negras, andrajos mijados...

O curioso que achei é que um deles dormia acompanhado de um molhe de uma planta, sei lá, que não identifiquei muito bem, mas que se parecia, aproximadamente, com ramos de palmeira, é tudo que posso dizer, devido à minha alta ignorância quanto ao mundo da flora... Enfim, o cara dormia ao lado de um amarrado de folhas verdes e aquilo me chamou a atenção.

Eu não sei o que fazer quando vejo essa gente dormindo jogada pelas calçadas, alguém sabe? Deveria haver um manual à venda na Saraiva ou em outra rede de livrarias qualquer em que se pudesse receber alguma instrução a respeito. Ou, ainda, um número do Estado, tipo 192, 193, para o qual se pudesse ligar e aparecer alguém, uma equipe de assistentes sociais, digamos, de preferência de mulheres bonitas e gostosas, em nome da cidadania, para fazer algo em benefício daquelas pessoas e da própria cidade, vítima última também desse caos humano e social em que vamos imersos e atolados nele até o pescoço. Sem qualquer perspectiva palpável de solução.

Tá certo, trata-se aqui de uma sociologia ingênua e muito provavelmente cristã, não renego as minhas origens, mas creio que mesmo o mais resoluto dos ateus ou o mais indiferente dos ricaços, se é que precisamos continuar a associar a indiferença aos ricos, nesses tempos onde todas as forças perderam seu vetor original e patinam no caos como biruta ao vento... qualquer um, creio, há de concordar comigo que não é nada bom para o Rio de Janeiro esse quadro de desintegração que se degusta pelas ruas, isso faz mal ao ânimo, ao estômago, ao coração, aos intestinos, faz mal ao corpo todo e nós não temos sequer um fórum social onde se possam discutir políticas públicas que nos privem dessa situação desalentadora de ver um igual (porque é um igual, pois não?) jogado pelas calçadas, apodrecendo. Diabos! Temos necessariamente de reverter isso, mas, como?! Alguém sabe?...

Essas perguntas me torpedeiam há anos, vou envelhecendo (e envilecendo) sem conseguir respondê-las de um ponto de vista prático e o máximo que consigo é compartilhá-las com você, leitor, na expectativa de ajudar na construção de uma resposta. O que fazer, afinal?!...

Aí, quando retornei do dentista, em outro ponto ainda próximo de casa, reencontrei um dos rapazes desgrenhados já acordado, sentado a um canto da calçada, em meio a um fluxo intenso de passantes, confeccionando sofisticadas rosas com aquela folhagem que trazia ao lado do corpo enquanto dormia.

Não mendigava. Oferecia rosas verdes, de um verde brilhante, muitíssimo bem elaboradas e urdidas, num desenho perfeito, em troca do que lhe pudessem dar. Passei batido e aturdido com a minha própria vida e impotência, olhei de revesgüete (fica proibido abolir o trëma de revesgüete, informo desde já ao vernáculo) e segui com pressa para o nada. Mas, sinceramente?... No esforço daquele pobre rapaz estava contido o melhor dessa cidade maravilhosa, cruel e criativa.

O outro, na minha rua, a boca aberta sob o céu de outono, continuava desacordado. Pelo crack, é provável... que nada tem a ver com o sono dos justos...
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