01 de dezembro de 2017 às 16:00
E não é que o Faísca tinha razão?
A superstição, a crendice etc. são filhas não da ignorância propriamente, mas, da falta de perspectivas, da necessidade humana de inventar a esperança quando esta se ausenta. É o que nos leva habitualmente à mesa de tarot e outros oráculos arquetípicos da humanidade, que sobrevivem em meio à modernidade ou pós-modernidade contemporânea. Esta que logo vai passar e nos levar a todos com ela, sem que tenhamos mesmo logrado uma explicação convincente para o modo como escolhemos viver e depois desaparecer.

Há cerca de quinze anos passados, a saúde abalada por cataclismos pessoais diversos, eu quase engolfado por mim mesmo em um mar abúlico de perturbações, múltiplas, deletérias, fui parar, sabe-se lá pela mão de quem, no consultório do Faísca, que de médico não usa o título e é, de fato, engenheiro por profissão. Especialista em iridologia, uma dessas ciências alternativas do universo paralelo a que habitam caipiras esotéricos como eu, Faísca tornou-se praticamente uma lembrança mítica em minha vida. Explico porque.

A análise iridológica correu dentro das minhas expectativas, o surpreendente ficou por conta do que estava escrito na palma de minha mão esquerda, entre a raiz do mínimo e o anular, onde, graças aos seus conhecimentos - estranhíssimos para mim, por sinal -, Faísca pode constatar, depois de muitos acertos incontestáveis sobre outros aspectos, uma situação qualquer a determinar que as coisas só começariam a se desenvolver para mim, em termos profissionais, a partir dos quarenta e cinco anos. Caceta, tinha acabado de completar trinta!...

Fiquei perturbadíssimo porque, àquele tempo, minha sobrevivência econômica, como dramaturgo e diretor de teatro, já era um deus-nos-acuda danado. E as palavras despedidas pelo Faísca, como fagulhas a incendiar a frustração, postergavam para dali há mera década e meia - só isso - qualquer chance de sucesso ou êxito para o meu trabalho. De amargar. Lembro que fiquei arrasado exatamente porque a sentença expedida parecia fazer sentido frente aos fatos que se sucediam e estava coerente com a situação de pindura que então vivenciava. E não deu outra.

Claro que não passei os anos seguintes a me recordar por todos os dias do infortúnio - fortuitamente - revelado naquele vaticínio. (Inesperado, além de tudo, pois eu não sabia que além das íris ele leria, também, as minhas mãos). Mas, e não é que o Faísca teve razão? Tudo que encenei, escrevi ou compus ao longo dos últimos quinze anos - e não foi pouca coisa -, ou passou despercebido ou permaneceu em sua maior parte sob a guarda rigorosa de fungos de gaveta e outros bolores da existência que corroem, com as traças, os nossos melhores planos. Foi incrível, mas, é preciso admitir, nada deu realmente muito certo para o meu lado, nada fluiu como eu gostaria, sempre uma sombra a toldar o sol, um movimento sub-reptício qualquer a desmoronar contratos praticamente firmados e assim foi, sem fuga nem saída, o trajeto que separa uma consulta da outra.

Sim, porque ressuscitei a lembrança do Faísca e resolvi consultá-lo de novo, cumpridos os terríveis quinze anos de irreconhecimento e privações, tão acertadamente previstos. Tive de me virar com outras armas, neste tempo, e o fiz com relativo sucesso e alguma alegria. Vencedor na derrota, pode-se dizer, como muitos ou, talvez, a maioria. À custa, porém, muita vez da saúde; outras vezes, de valores pessoais e, por fim, do próprio caminho da arte, que se foi a perder, esmaecer, desbotar... mas, não ao ponto de se apagar de todo, não ao ponto de não mais desejá-lo como caminho de terra, apesar de todos os sacrifícios e dificuldades dele resultantes, sobretudo, agora, para minha descendência, o que é o pior e dói ainda muito mais... a idéia de que os filhos pagam por erros e fracassos sociais dos pais é uma idéia demasiado dolorosa... todavia, real. É preciso encará-la, sem sentimentalismos nem condescendências. E viver a sua culpa e a sua inocência a um tempo.

Curiosamente, essa conseqüência inevitável de nossos destinos sobre a vida de filhos e netos, quando somos perdedores inatos, gera uma energia colossal no interior de nossas entranhas como a dizer ao mundo e à vida: escute aqui, não trate aos meus como tratou a mim, eles não têm culpa nem responsabilidade por minhas escolhas nem muito menos pelo que está inscrito em meu destino pessoal e que refere à tábua dos antepassados, deixe-os livres para saborear o mel da vida e realizar suas melhores oportunidades como pessoas. Respeite-lhes as individualidades no que têm de melhor! Não lhes imponha como a mim o destino dos rebanhos!

Faísca tornou a não ver nada que prestasse na palma de minha mão - mas, nas íris, a saúde vai boa - ou, talvez, o que viu, achou melhor não falar. Despistou, perdeu-se descalço no consultório, evadiu de meus olhos pedintes por uma luz do futuro... devo estar ferrado, pensei, mas, enfim, foda-se... O importante é salvaguardar que a turma - filhos e netos - esteja livre do carma que vou queimando, aos poucos, no fogo brando deste inferno doce e azul... Nada é mais aterrador do que vislumbrar nos filhos os defeitos e condicionamentos que não conseguiu superar em si... Se há uma arte possível à existência do homem comum é esta: tirar de cima dos ombros dos descendentes o fardo que arrasta em honra [equivocada] dos antepassados.

O Faísca nem precisava me dizer que tenho muito trabalho pela frente, nos próximos quinze anos.



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