02 de dezembro de 2017 às 00:00
O sol inesperado

Nada que pedir
Ou implorar
Arrastando-me, cruel
No chão da auto-piedade
O outro está ali
Do lado de lá de mim
Com seu sorriso
E sua indiferença
Comunico-lhe pouco
De minha capacidade de amar
E menos ainda
De meu desejo de ser amado
Como pedir esta graça?
Como implorar esta dádiva?
Não, não há como
As palavras não nasceram
Para dizer ama-me
Inventaram-se as palavras, antes
Para dizer amo-te
Amo-te e nada de te peço
Amo-te e nada imploro
Devo viver da insuficiência
De meu próprio afeto
Não com a arrogância
Do que julgam nada precisar
Antes, com a serenidade
Dos que sabem ser impossível
Pedir
Mesmo implorar
Que o fogo do amor
Por suas labaredas
Lance-nos línguas compridas
Para o beijo cálido dos encontros
Não há registro
De algo realmente perfeito
Neste sentido
Tudo que podemos
Na limitação de nós mesmos
Extensão inconclusa do mundo
É deixar viver
A solidão
E a esperança
Em nosso peito
Até que um sol inesperado
Mesmo no rumor da noite
Mesmo à sombra gélida
Dos dias últimos
Surpreenda-nos para dizer:
Você também foi contemplado
Você também teve a conhecer
O sentido único do precário (a vida)
Não é um consolo
Antes, a coroa de espinhos
De uma glória anônima
Que se não divide
Senão de fato com quem nos amou
Igualmente sem nada pedir nem implorar

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