04 de dezembro de 2017 às 16:00
Sinfonia de ruídos
Não sei se é a idade - que minha caçula chama de velhice, a sacana! - mas algo me move, cada vez mais, em direção ao cânon no meu pensamento. Freud [1856-1939], entre eles. Na sua fisiologia da mente têm destaque os chistes, os atos falhos e eu acabei por fazer uma conexão - improvável ou não - entre como estes se manifestam em mim e determinadas pessoas com quem me relaciono, devido à sistemática repetição de erros que cometo em suas presenças. De modo quase estatístico, pode-se dizer. É incrível! Um sem-número de ações que desenvolvo com relativa facilidade a sós ou junto de outros, tornam-se verdadeiros pesadelos operacionais em face desta ou daquela pessoa, como se uma incapacidade insuspeitada saltasse de mim para o diálogo de surdos.

Estou falando de miudezas do quotidiano, pequenos gestos - como abrir um garrafa de vinho ou dirigir um carro ou imprimir um texto em uma impressora doméstica - que se complicam veementemente sem que uma explicação razoável se levante. Ou, para ficar no terreno mais popular da questão: tem certos caras com os quais me recuso a assistir a um jogo do Vasco. É derrota na certa! Costumo dizer que macumba só funciona para fazer o bem, porque, afinal, reza o ditado, Deus não dá asa a cobra e o mal é sempre reflexo. Mas, ainda assim, não é uma explicação nem razoável nem suficiente... O que se passa, eu me pergunto, que o sujeito com seu modo de olhar modifica o objeto? A resposta vaga em ondas, à deriva.

A leitura de Freud ajuda a desvendar meus próprios mecanismos - é certo -, o que esta leitura, entretanto, não é capaz de dar conta, a princípio, é de porque buscamos por vezes, com tanta obstinação, a companhia perene de pessoas cuja combinação energética conosco não é capaz de produzir mais do que estes pequenos e imperceptíveis equívocos diários que compõem uma verdadeira sinfonia de ruídos em nossas vidas. As ações não progridem! Os resultados abortam. As respostas calam. As coisas não acontecem. E, no entanto, permanecemos ali, dentro daquela relação estagnada, rendendo menos do que sabemos que poderíamos render, na excelência de nossas forças, por motivações interiores - profundas - que sequer emergem ao campo da consciência, a partir do que elegemos as nossas escolhas. Mesmo as mais infundadas.

E vai o quotidiano atravessado por intercorrências que o reduzem a um punhado de mal-entendidos, frases pela metade, sentimentos idem, onde claramente podemos perceber a nós em um nível abaixo do que seríamos capazes caso o estímulo externo, de que todos dependemos para o êxito de nossas trocas em busca da conservação da energia, se mostrasse, digamos, mais potente e compatível

Evidentemente que não me ocorre qualquer idílio de relacionamento ou comunicação entre as pessoas, o próprio grau de indeterminação em que ambas se dão ao dia a dia e ao longo da existência por si só explica a complexidade aí envolvida, e incontornável. Porém, o que me abisma é certa tendência dominante que posso constatar - não apenas em minha própria rede de relacionamentos, mas de modo geral, dentro do meu campo de observação - para produzirmos encontros que emperram o fluir da nossa energia, mais que liberá-la, como se buscássemos, na maior parte das vezes, mais a censura do que a liberação no âmago de nossas relações. É estranho. E o mais estranho, ainda, é que acontece com freqüência acima do razoável. Assustadora mesmo!

E nem tudo pode, muito simplesmente, ser debitado à conta corrente do indivíduo - o que constituiria uma operação simplificadora, ainda que provesse a explicação por vezes consoladora para tantos de nossos contumazes equívocos. A psicanálise, em certo sentido, praticou este débito ao longo dos últimos cem anos.

Uma comunicação subliminar - sem palavras - estabelece-se, de cara e de pronto, entre as pessoas, todas as vezes que elas entram em contato. Algo muito semelhante, senão idêntico, ao que se passa quando você chega à casa de alguém que possui um animal e ele reage desta ou daquela maneira à sua presença - com simpatia, repulsa ou indiferença, basicamente. Só que com os animais os nossos conteúdos simbólicos não avançam muito ao nível do diálogo, ao passo que com os demais da nossa espécie a coisa flui em um verdadeiro carrossel de significados para o qual a nossa percepção, na maior parte do tempo imersa em inconsciência, não é capaz de detectar o sentido do que está acontecendo. Nem no ato e nem mesmo depois. Vai velado. E as relações mergulham para dentro do mar de suas indeterminações e significados ocultos, de onde, creio, saltam os chistes e atos falhos como golfinhos alegres - ainda que desajeitados! - a chamar nossa atenção para o sentido e a possibilidade de toda aquela trama de atos gratuitos que caracteriza a abundância de conexões do quotidiano.

Não há muito como escapar - é o que percebo. Uma prontidão permanente nos levaria ao isolamento e à loucura. Por outro lado, entretanto, a inconsciência plena destes mecanismos - chamemo-los assim - é igualmente enlouquecedora, na medida em que a energia de cada um - tomada do ponto de vista estrito da libido ou mais amplamente que seja como a energia que conforma o destino individual - acaba por não se cumprir em sua plenitude em face de constantes e persistentes obstáculos às oportunidades a que cada pessoa faz jus por sua própria natureza.

Digo, outrossim, que construímos dia a dia uma sociedade que nos exige e permite muito menos do que somos e que reserva a uns poucos a graça - terrena e plausível - de tocar a vastidão e a amplidão de seus próprios limites. Objetivo e glória que deveríamos assegurar a todos. Pelo bem-estar de todos.

Mas, não! O que vimos é o contrário disto. A turma que não faz e nem deixa fazer domina grandemente os mecanismos sociais de realização. No interior das famílias, onde principia o processo de castração e conformação dos indivíduos aos parâmetros de sua época, bagos e grelos insubordinados constituem o alvo preferencial do exercício da autoridade - diante de um mundo que se esfacela a olhos vistos sem que nada, efetivamente, possa ser feito em contrário.

Não, pelo menos, até que o indivíduo acorde para suas recorrentes escolhas e as entenda como o ato decisivo de sua simpatia, indiferença ou repulsa à construção dos sanatórios metropolitanos a céu aberto em que se vão transformando gradativamente as cidades, onde nos movemos - por atos de inconsciência - como formigas operárias que apenas acumulam o alimento.

Não há como superar os chistes, neste contexto. Ao contrário, tendem a agravar-se em cacoetes que acrescentam ao nosso ridículo a sua graça indesculpável.

Uma audição de si mesmo parece ser, dadas as circunstâncias, a alternativa mais razoável. Ainda.

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