06 de dezembro de 2017 às 00:00
Poema feito de sangue

(para Fausto Fawcett)

 

São tantas as tormentas
Meu espírito está cansado
de soçobrar ao mar estéril, sem peixes
Fiz perguntas demasiadas
ao caos, interroguei a desordem
Cri, como um grilo falante,
que meu cricrilar juvenil
Fosse doce canção de flautas,
música etérea, de insistência leve
Resultou impertinente este esforço,
do que hoje se ressente também o meu corpo
Ofego ao véu da noite
em que trafego insone e desacordado
Esgotado, sou talvez o outro
que se esconde atrás da aurora
Essa fisionomia incontemplada
Este amor pela metade
Tudo isto me prostra,
mesmo o verso desconexo
Filho do escuro em que vou mergulhado
Quis despir a vaidade,
e rasguei o próprio amor
Quis desnudar a face,
e a afivelei à máscara
Quis depor as armas,
e acabei indefeso
Quis matar a vontade,
e fiz-me o escravo do desejo
A paixão, que é propriamente
o medo de não sentir o presente
Fez-me longe, aturdido em nuvens
tão distantes do Altíssimo
Olho, então, para o amor,
vejo-o brando, manso, suave
Sem entonações nem ênfase, como um poema menor,
vejo-o liso a escorregar
Para fora do abismo
em um vôo delicado e sem asas, plano, pleno
Sem palavras
As palavras, que são o meu tesouro
e minha tesoura
As palavras estão mudas
diante de Deus
Por uma necessidade absoluta
de silêncio
Que dizer?
Estou cansado
Exausto o meu espírito
Por sua diversidade
Por ser adverso, avesso
Quedo, sem o consolo dos retos
Sem, contudo, admitir, no íntimo
Senão o desejo folião da carne,
irresponsável fome de sexo
Carnaval fugaz...
O mal de ser integralmente mortal,
alguém pronto para morrer a qualquer momento
Escapou-me esta grandeza menor
do homem abaixo da linha do tempo
Perdeu-se o beijo gratuito,
na esquina
Estou tão comprometido
Estou tão compromissado
Tudo que me permitir serão feridas
Máculas no corpo alheio
Agressões que cometo
ao simples respiro
A hipocrisia indaga-me
por sua utilidade
A mentira confessa-se
de algomodo pragmática
Onde ser em mim
o menino sem ânimo de iludir?
O que quer o mundo
senão o véu diáfano das palavras não-ditas?
Resta-me um silêncio
que me faz pecar
E o verso suicida
em que me confesso
De forma insuportável
para ser amado
Tal modo são punhais,
este poema do sangue,
Que contra mim eu cravo:
se o guardo, um travo
Se o declamo,
desamo-me, estrago
E meu espírito, assim,
está cansado:
Interroguei o caos e,
por interrogá-lo,
Fui por ele devorado
Vago, assim, com a alma pelada
pela planície descascada dos homens danados...

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