14 de dezembro de 2017 às 16:00
O Cristo inquietante
Há uma associação clara e direta na doutrina do Cristo entre morte, saúde e comportamento moral, isto é, intenção e escolhas. Assim, morre-se e adoece, deste ponto de vista, exclusivamente em decorrência da atitude moral, do nível de consciência de pensamentos, palavras, atos e omissões praticados pela pessoa humana.

Isto é inquietante, pois faz-no supor a superação de um limite intransponível não apenas à natureza humana como à própria realidade física - a natureza abrangente que envolve o muito pequeno e o infinitamente grande do universo conhecido até aqui - que é o limite da morte, essa irmã siamesa da vida.

O aleijado que há trinta e oito anos aguarda pela oportunidade de banhar-se à cisterna de Betesda, extramuros de Jerusalém, próxima à Porta das Ovelhas, entre a torre Antônia e o horto de Getsemani, por ocasião das festas do Pentecostes, onde a crença popular da época anuncia a cura para o primeiro que mergulhar em suas águas revolvidas pela ação de um anjo, este aleijado a quem Jesus simplesmente ordena levanta-te, toma teu catre e anda (João 5, 1 a 47), recebe depois, no reencontro de ambos à esplanada do Templo, a mansa admoestação: eis que estás são; não peques mais para que te não suceda coisa pior. A morte?

A cultura judaico-cristã, partiu desta consideração metafísica acerca da conservação da matéria e seu íntimo relacionamento com o mundo subjetivo da mente humana para o fértil terreno da culpa - esta que, com a infelicidade da alma, forma a dupla de área preferida da vazada defesa do desejo humano. Demônio que se não exorciza!

Creio, porém, que se não deva promover tal associação - entre culpa e morte ou, para dizer de outro modo, entre pecado e doença - a partir das palavras do Cristo, cuja síntese moral alcança para a experiência humana ápice jamais igualado, exatamente por sua indescritível clareza, objetividade e, principalmente, economia.

A história moral do homem encerra-se com o Cristo, não há o que acrescentar depois dele. Ele é o próprio juízo final da humanidade, o julgador último como se autodenomina (sempre em João) enviado pelo Deus de Abraão, o Pai, também exatamente neste sentido: o de que sua pregação moral é a mais abrangente e acessível ao mais restrito e ignorante dos homens a quem é dado contactar-se com o teor, simples e manso, de sua doutrina moral. Em qualquer estágio de conhecimento formal ou informal em que esteja um homem, letrado ou não, é possível a ele, na infância, adolescência, juventude, maturidade ou velhice, apreender de pronto, sem outro intermediário que senão sua própria consciência e sentimentos, a mensagem de amor, misericórdia e perdão do Cristo como a fonte nova, de água viva, para a ressurreição da carne; muito embora os sucessivos véus de puro mistério ainda a envolver a nossa compreensão quanto ao sentido e significado de tudo isto, de todas estas figurações de nossa eventual e possível transubstanciação em espírito e verdade, façam supor um longo epílogo histórico até a elucidação e posse do conhecimento implícito em seu exemplo e na celebração de sua palavra.

De qualquer forma, considerados os estudos da psicologia, nos últimos cento e cinqüenta anos, e, mais recentemente, da Mecânica Quântica, desde a segunda década do último século, se vão tornando mais óbvias as evidências que relacionam saúde física e mental como resultado de um processo único, unificado, anterior mesmo à nossa própria, fátua existência como indivíduo decorrente de outrem - para cuja compreensão concorre, então, a genética. Em suma, o que não faltam são corpos teóricos, disciplinares ou transdisciplinares, de surpreendente efeito comprobatório às chamadas verdades bíblicas e seu conteúdo moral, não obstante sem necessariamente corroborar a culpa e o princípio da infelicidade como os grandes motores básicos da psique do homem descido das árvores.

Cito Carta aos Hebreus, capítulo XI, definição de fé que me foi ensinada por meu filho mais velho, como a demonstração deste evidente relacionamento entre o mundo visível e invisível que igualmente ocupa os físicos quânticos, sem que se faça necessária a adoção do conteúdo moral - repetindo de certa forma o que já foi dito acima.

Contudo, o que é inquietante para o racionalismo repousa justamente neste conhecimento ancestral dos fundamentos da existência humana e que, aí sim, diferentemente do que se nos parece para o restante da natureza, tem para a vida do homem um sentido irrefutável. A saber:

Não há sequer grupamento ou sociedade, muito menos civilização sem a concorrência de um conjunto definido de atitudes morais, não há - para o homem - qualquer possibilidade de vir a existir fora, para aquém ou para além, de seus conteúdos morais. É o que nos remete ao Cristo e sua consideração metafísica acerca de pecado e doença. É inquietante. A ciência o vai comprovando. Todos os nossos tortuosos percursos racionalistas, como os caminhos que levam a Roma, reconduzem-nos por fim àquelas suas simplicidades metafóricas, de extraordinária e - por que não dizer? - intangível beleza moral, uma beleza fulgurante que irradia uma luz fria, que não vem do fogo das paixões, isto é, do campo de cinábrio, no baixo ventre; é esta luz de outra dimensão, análoga ao laser, talvez, que intriga, especialmente por que cada um de nós, no silêncio de sua própria consciência individual, encontra-se incrivelmente preparado a compreendê-la e admirá-la, mesmo que se a não espose para si. Pecadores contumazes que somos.

Este se me parece o grande mistério do Cristo, a possibilidade de ser sentido e compreendido por qualquer consciência humana em seu recesso recôndito, para além de ilusões, mentiras, tergiversações e demais logros ou sofismas com o que nos acostumamos a distrair a atenção de nossas mentes. É intrigante que alguém fale simplesmente a todos os homens - em todos os tempos e lugares - antes e depois de si. É inquietante.

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Atento à nossa natureza dialética, cindida em sim e não - ou em zero ou um, para usar a linguagem binária dos computadores -, o Cristo oferece duas passagens, ainda acerca de pecado e doença, para uma reflexão em torno da hereditariedade e do livre-arbítrio do indivíduo, combinando-as, em circunstâncias diversas, de modo absolutamente perturbador. Pela árvore conhecereis o fruto é a primeira delas e não deixa dúvida de que não nascem tâmaras de espinheiros, coloca a questão da herança genética como limite, senão instransponível, ao menos a ser superado pelo indivíduo em sua empreitada na Terra; remete-o fortemente ao seio da família para ali observar e compreender a dinâmica dos comportamentos adquiridos e longamente gestados no interior de cada grupamento a que se ligam as pessoas por laços de sangue, o que está longe de significar semelhanças tão somente de traços fisionômicos e outras exterioridades notáveis. Não. A pertinência a um clã, formal ou informe, representa uma complexa herança moral, neuronal e tudo mais que envolve a arquitetura - a planta baixa, digamos - dos fundamentos de todo e qualquer indivíduo. Tenho a impressão de que quanto menos sabemos acerca deste patrimônio vivo do passado que corre em nossas veias, mais o somos condicionado por ele, de forma por assim dizer automática, inconsciente, o que em geral significa ver-se escravo de determinações auto-destrutivas, pois este mundo atávico, ancestral, ignora mediações morais e conteúdos individuais, quer tão somente fazer viver e reafirmar este patrimônio acumulado, fazê-lo expandir-se a partir de suas forças hegemônicas - o indivíduo que se dane para se livrar do que em si pertence ao todo!

É onde entra a segunda observação do Cristo quando isenta os filhos dos pecados de seus pais (Jo 9, 1-3), mesmo que deles usufrutuários, como somos a maioria. É simples. Cada homem traz em seu cerne, tal qual as digitais únicas impressas nas pontas dos dedos, uma intenção para a vida que lhe é igualmente única e genuína, um presente de Deus, vamos dizer assim; ser o que se é - e não o outro - é dom, é dádiva que se nos apartam do pesado fardo das hereditariedades em direção à pessoa singular a que estamos convidados a vir a ser nesta vida e neste mundo, seja lá por que misterioso processo for.

O homem, diferentemente do corolário heiddegariano, não é um ser para a morte - mas, para a liberdade. Cada indivíduo da espécie, por seus dons, recebe este chamado para vir a ser livre, segundo o Cristo, inclusive da morte. O que me parece possível, porém, improvável... Quantas miríades de anos-luz seriam necessárias para que compreendêssemos, do fundo de nossos múltiplos corações, o imperativo e a urgência do amor, da misericórdia e do perdão? Parece-me mais factível que se nos aniquilemos muito antes disso, as condições de temperatura e pressão, contingência e circunstância, mais a força gravitacional que regem a realidade física deste planeta tornam-no opresso e propenso à depressão, não obstante sua descomunal beleza.

Engana-se Shopenhauer quando supõe uma vocação inata do homem para a felicidade, isto é falso. Estamos muito mais aptos ao sofrimento do que ao prazer, estamos muito mais acostumados e habilitados à contrariedade, à frustração do que ao gozo e à confiança mútua em nossos relacionamentos, somos mais tumulto que alegria, confusão que harmonia, agressão que delicadeza, somos mais força do que fortaleza - no sentido de uma força fraca como aquela que equilibra o núcleo atômico. Aliás, Cristo já testificara esta realidade física ao afirmar meu jugo é manso, era ele a força fraca do núcleo que se revelava ao conteúdo moral das nossas civilizações.

Quem sabe o homem, enfraquece-se à sua presença. Quem ama o homem, propugna por sua delicadeza. Não há outro caminho. Ninguém chega a si mesmo (ao Pai) senão pelo amor do outro - parece óbvio, mas não tem sido compreendido na prática dos relacionamentos sociais e pessoais ao cabo de dois mil anos, desde que foi dito, com todos os erres e efes e mais o sacrifício de sangue do manso interlocutor. Ninguém quer deixar de ser homem no esplendor de sua própria crueldade e vileza, preferimos a morte à epifania.

A morada do Pai, a que refere o Cristo, preserva-se imaculada, como o sacrário de um altar sem oferendas de vidas alheias - nem pombas nem bodes - no interior do coração de cada indivíduo da espécie. Pode ser aberta ou não, conhecida ou não, zero ou um, lembram-se? Partícula ou onda. Tudo depende única e exclusivamente da intenção de cada um no âmago e silêncio de seu destino. Queres pouco, terás nada. Queres muito, terás em abundância. Sobretudo, terás o que quiseres ter e depois não te reclames a ti! Ou entrega-te a Deus que sabe melhor do que ti o que te convém, e não te aborreças tanto com tua infinita ignorância. São caminhos. São escolhas. Aqui, sim, Heiddeger diz tudo: vida é intenção. Mas, o Cristo já havia dito isto e tudo o mais, muito antes. Cristo pôs um ponto final na história moral do homem, superá-lo seria deixar de ser Homem. Como é possível? Mas, ele afirma que é possível! Então, calo e aceito...

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