17 de dezembro de 2017 às 00:00
A canção dos cinco irmãos
Assim seguiam os cinco irmãos
O primogênito natimorto
Morto o segundo às portas dos cinqüenta anos
O terceiro ido com quarenta e poucos
O quarto também natimorto
Restou, apenas, o temporão
Aluado, aéreo, biruta ao vento
A caminhar na vida com os passos dos seus irmãos
O protagonista
O antagonista
O coadjuvante
O figurante
E ele, o espectador
Todos artistas
Entre vida e morte
Prazer e dor
Legião!
Demônios astutos travessos sinceros e dissimulados
Passavam-se todos por inspiração
Os que sequer haviam nascido
Mais até que os morridos
Misturavam-se ao temporão
Alternavam-se, embaralhavam-se, enlouquecidos
A obrigar-lhe concomitanteintermitentecontínuo serão
Sempre em falta
Sempre perdido
Sempre em baixa ou em alta
Sempre aturdido
Seguia o pobre diabo
Muita vez de si esquecido
E de sua obrigação
Afoito por ser reconhecido
Muito embora, no seu desgosto
Se tivesse tornado máscara sem rosto
A quem só se podia dizer não
Não! Não lhe conheço
Não! Não lhe reconheço
Quem é você?
Qual dos seus irmãos?
Por que caminha tão presto para fora de si
Confundido em meio à multidão?
Multitudinário parlapatão!
Onde está que não se vê?
Quem é você? Quem é você?
Legião!

Assim seguiam os cinco irmãos
Um em cada alça do caixão
Onde repousava ao cortejo o corpo do vivo
Por que motivo? Por que motivo
Não vive o temporão os seus desejos?
O tempo passa
E os quatro, nele, redivivos
São uma constante ameaça
De que tempo não haja para o que é vivo
Enquanto a morte grassa
Pelos confins de sua alma e desvãos
O que lhe dá uma sensação de eternidade
De todo tempo do mundo
De todo tempo da vida
O que é uma farsa - na verdade
Da qual, porém, está convencido
Em sua letargia
Em sua trajetória erradia
De onde irradia, oculto
A luz de um prisma de cinco faces
Ora santo
Ora canalha
Ora cajado
Ora mortalha
Ora túmulo veludo e palha
Os anos deitam
A pátina do tempo
Sobre seus ossos, que estalam
Como gravetos na pequena fogueira
Ao quintal da finada família
Todos se foram, partiram
Restou provisoriamente o temporão
Como uma ilha assombrada
Seus fantasmas o fazem arfar daqui para ali
Com passos trocados e alquebrados
Apressados e presumidos
A pedir esmolas a mendigos
A implorar pelo amor de falsos amigos
A indiscernir entre aliados e inimigos
A interpretar a emoção como juízo
Confuso, difuso, distante, ausente e diluído...
Já mais velho que o irmão mais velho
Que morreu rebento
Inda assim mais jovem que o irmão mais novo
Que nasceu defunto
Um espantalho de luto ao relento
A afastar os abutres das imateriais carcaças
A espernear da areia ao mar do esquecimento
Com pueris pirraças - versos e melodias ao vento...
Um garotão envelhecido
Um cinqüentão inconseqüente
Que não chegou a ser ele mesmo
Permaneceu por todo tempo a esmo, impertinente
Em legião

Assim caminham os cinco irmãos
Reunidos em um só corpo
Quatro vivos e um morto...

Por que motivo? Por que motivo eu me pergunto
Se quatro já moram na cidade do pé junto
E resta um só entre os vivos, por enquanto?
A resposta, sei, pode causar espanto
Mas, é uma só - diga-se o que for
Só um motivo une ao morto o vivo
E é tudo que cabe em uma canção ou um livro
É o amor, é o amor!...


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