19 de dezembro de 2017 às 00:00
O reflexo opaco do ser

Por óbvio que minha vida foi encurtada
A tristeza é uma tesoura afiada
A aparar sonhos e planos
E possibilidades de longo prazo
Um gene longevo
Não sobrevive em Saraievo
Nem um percevejo
Na estepe russa
Meu amor se foi
Com ele doem minhas esperanças
Nada espero
Que à alegria exaspero
E um vaso transbordo de lágrimas
Bebo um copo de cólera
Um pote de raiva
E digo a mim:
Por que ficar
Se aqui nada mais há que me modifique
Nem mesmo um pobre mujique
Capaz de a revolução inspirar
O sol do Mediterrâneo
O azul do Egeu
Aquela coisa gris de Paris
Em que portas fechar meu corpo
A que janelas abrir-me sem tramelas ou gelosias
Em que paisagem capturar a paz perdida de um olhar fúnebre e funesto
De resto, o que me resta
Senão réstias lúgubres de uma luz ao poente
Sou o perdedor e a perdição
O mau pagador e a maldição
A dor atroz
Amor ausente
Por óbvio que a vida se ressente
E me olha de esguelha
Não mais me espelha ou quer manter
Sou o reflexo opaco do ser

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