19 de dezembro de 2017 às 16:00
Um olhar pessoal
Há uma maneira de observar a vida - senti-la e agir sobre ela - que independe de tudo mais, senão de nós mesmos. Assim, pode-se ver, mais que aquela miríade de eventos dispersos na maré do quotidiano, a essência mesma de nossa paisagem íntima, no que nela há de fundamento da pessoa que somos - ou que nos tornamos. E esta observação faz por recolocar uma ordem de prioridade para nossas escolhas dentro desse mesmo dia a dia.

Este modo pessoal de olhar a vida, não é que reúna singularidades em pletora - muito pelo contrário, talvez ele esteja marcado pela pecepção de um vasto patrimônio de valores e atitudes comuns a todos os homens -, mas é que nos faz referir em nós mesmos todas as nossas decisões: do milho de pipoca que apanhamos à gôndola do supermercado até a perpetuidade de uma relação de casamento.

A partir deste prisma, tudo adquire um sabor especial: sou eu que estou ali, no fundo de minhas ações, e não qualquer alteridade outra (redundância formidável, esta!) dessas tantas a que somos chamados a praticar quotidianamente enquanto não sabemos ao certo o que estamos fazendo por estas conturbadas bandas.

Tudo seguirá rigorosamente igual e inalterado antes e depois de nossa estada por aqui, é fato. Mas, o modo como abocanhamos a maçã do afeto parece-me hoje uma justificativa satisfatória a considerar quando estiverem lacrando aquele paletó de madeira que farão descer ao seio da terra, na nossa despedida desse mundo.

Serão certezas mínimas as que aparecerão por certo aos nossos olhos, na hora última. A persistência em favor de um filho, o respeito devido aos vizinhos, o amor demonstrado pela companheira, a camaradagem pelos amigos, as emoções de uma paixão arrebatadora etc. Mas, sobretudo, o que mais pode-nos confortar - creio - é a tranquilidade de ter agido sempre em favor de leis e forças que governam a vida desde as entranhas até a aurora dos tempos, o que obrigatoriamente nos remete ao amor universal, à justiça e a coragem de viver para o gozo e à alegria mais profundos. Mesmo que não sejamos efusivos; antes, até, discretos.




© CIA DO AR. AÇÕES EM CULTURA 2018  |   DESENVOLVIDO POR CRIWEB  |   PROGRAMADOR LED LEMOS  |   POLÍTICA DE PRIVACIDADE