20 de dezembro de 2017 às 16:00
Encontros
E eu pergunto, então, ao brilho dos teus olhos: nada existe de possível entre uma mulher e um homem senão o amor, o amor e toda a sua traquitana, sexo, famílias, antepassados, filhos... quando os olhos de uma mulher e um homem se encontram, ainda no breu de seus desejos, sob a capa distante de uma atração inexplicada que os chama (convoca) um para o outro, independentemente da arrumação de suas vidas, quando ocorre isso que a gente sabe que ocorre, mas não sabe como nem porque ocorre, apenas que é forte, encanta e perturba, quando isso ocorre, pergunto, são apenas os rios dos instintos querendo falar por debaixo da pele, são tão somente os hormônios de um e de outro fluindo em direção ao que imaginaram e viram de possível entre si e que anseiam por realizar como ato, ato sexual, ato procriador, ato inaugural de uma nova linhagem desse mamífero desesperado que ama? Será isso e só isso o possível, o factível, o realizável entre uma mulher e um homem, nada além? Nada na esfera do encontro, da afinidade, da escolha eletiva, da troca sincera, da entrega desinteressada de quem levanta e vai embora e esquece o anel na mesinha de cabeceira, nada na esfera do amor, bolas, do amor, sim, enfim e também, porém do amor transcendido de sua função perpetuadora, talvez mesmo do amor entregue à sua inescapável fatuidade, o amor entregue ao que há em si de provisório, de precário, de passageiro, de temporário, fugaz, e que pode durar simplesmente por uma encarnação - ou mais - dependendo do cuidado como aquela mulher e aquele homem tratem de si próprios e dos sentimentos que cumulam em seu peito, nada disso seria razoável supor ou esperar quando dois desejos se procuram para além de suas possibilidades explícitas?

Entendo e concordo com o que Schoppenhauer nos explicou acerca do grito genético que nos vem das entranhas ao nos depararmos com a criatura que julgamos adequada para a perpetuidade de nós mesmos, nessa maravilhosa invenção de continuidade que é a família e o clã, mas, raios, não temos mais porque - seis mil anos depois do começo de tudo - insistir por demasiado em um único caminho quando a vida se nos coloca para todos o seu generoso leque de múltiplas e infinitas possibilidades, o que se traduz por opções e escolhas a fazer no leito do quotidiano, tal modo compatibilizar as urgências mais profundas do ser que somos com as demandas mais sutis da existência que nós mesmos vamos nos oferecendo a cada manhã e que implicam - tais demandas - em nosso auto-reconhecimento e que nos sugerem muitos e surpreeendentes contatos, relacionamentos, encontros - pois só assim a vida se dá.

Creio que é preciso considerar que entre uma mulher e um homem pode-se supor e inventar relações inteiramente singulares, capazes de inovar na forma e no conteúdo de suas aproximações, pois, na verdade, o que não mudou em sessenta séculos de civilização - ou quase isso - é o anseio de amor e liberdade e consciência que ampara o indivíduo em sua busca pelo outro.

Se este objetivo não se cumpre, qualquer que seja a natureza da relação, ela está capenga. E aí não valeu, pois nascemos para andar pelas próprias pernas... amar de corpo inteiro... e penetrar os mistérios dessa vida... nascemos, enfim, para saborear o viver, e seu sabor está, sobretudo, na natureza inesperada, intensa, paradoxal ou duradoura do encontro. Ou tudo isso junto.
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