22 de dezembro de 2017 às 16:00
Erro e destino
Tratamos os nossos erros tal e como os nossos papéis, que dormem nas gavetas à espera de merecer um dia algum tipo de classificação que os organize, imprima-lhes sentido por assim dizer histórico ou afetivo.Diferentemente dos papéis, cuja vida ou sobrevida está condicionada ao interesse de alguém - nosso ou de outrem - por seu destino, e que apenas dormitam, desacordados, deslembrados, perdidos de sentido nos arquivos, nossos erros ao contrário - trancafiados nas gavetas do esquecimento, amenizados por certa palidez da memória -, nossos erros estão vivos e estacionados no momento exato de seu acontecimento em nossas vidas, muito simplesmente à espera de que os reparemos o mais breve possível que soubermos fazê-lo, por intermédio de novos e outros atos que os redimam - e a nós - de seu significado.

O difícil mesmo é diferenciar os erros dos papéis velhos, não obstante ambos se acumulem. É difícil também compreender que todo erro deve ser reparado, mais: que todo erro pode ser reparado através da intenção de fazê-lo por meio de um gesto novo. Determinado. E que esta atitude, este gesto nascido de uma intenção que perscruta a própria consciência, rastreando-a por meio de uma varredura, em busca de ressaltos sobressaltados na calçada noturna de nossos esquecimentos, é a única maneira que temos nós, vítimas da pós-ciência - só sabemos o que já aconteceu -, é a única maneira que temos, dizia, de nos anteciparmos à própria sorte e seu sorriso que vem do inesperado.

Não é à-toa que com o passar dos anos vamos perdendo, mais e mais, a intimidade infantil que liga o homem à sua fortuna. Falo de uma fortuna afetiva, amorosa, que nos reponha diariamente as energias e a alegria de viver; falo de fortuna como celebração da vida. É comum perdermos gradativamente o encanto com que nossos olhos podem mirar o horizonte, à medida que vamos envelhecendo. Reparar os erros que reconhecemos é fundamental para assegurar a reposição de nossas chances - de sorte - diante dos fatos da vida. A coisa funciona como uma espécie de lei físico-química que se cumpre, estranhamente, por obra de uma consciência moral do indivíduo. Trata-se de um mistério que os hindus explicam pela lei do karma e que aqui esforço-me por traduzir segundo as tradições científicas - ou pseudo-científicas - do racionalismo do Ocidente.

Não é possível explicar esta relação entre erro e destino de um modo claro e caudaloso de detalhes causais, porém, a cada um de nós, no recesso de sua própria consciência, é dado compreender em maior ou menor grau as conseqüências notáveis, quando não trágicas ou mesmo catastróficas, de tal insólita relação em nossas vidas. Insólita, diga-se, ao nosso modo de pensar, pois às concepções religiosas - em todas as latitudes do planeta, mesmo no cético taoísmo chinês - não é estranho nem insólito que um homem pague com sua vida pelos erros que cometeu ao longo dela.

Estas sabedorias que não se estruturam como corpos teóricos, mesmo recusam terminantemente tal conformação, não obstante boiem a milênios à flor do cérebro humano, nascem de um conhecimento adquirido ao coração por meio de seu envolvimento com as coisas da vida e do mundo - a partir, sobretudo, do reconhecimento de uma existência concreta para tudo aquilo que diz respeito às nossas escolhas morais, sabendo-se, desde já, que por moral referimo-nos aqui, também e sempre, ao que é amorável, isto é, ao que trata diretamente do amor e o mais que lhe seja correlato ou derivado.

Portanto, por mais intrigante ou inquietante que seja entrar em contato com esta percepção - a de uma estranha relação entre erro e destino -, o melhor e mais prático que podemos fazer, à guisa de fundamentar o que aqui se discorre sem qualquer ciência, mais mesmo pela intuição mera que empurra a caneta ao adiante de seu desconhecido, é prestar atenção ao que recomenda o Cristo ao longo do sermão da montanha, quando sugere-nos, sem delongas, largar tudo o mais que estamos fazendo e ir recompor-nos com nosso inimigo enquanto estamos a caminho. E o inimigo está dentro de nós. E não como inquilino ou visitante, cabe frisar...

Esquecer os próprios erros é, assim, ceifar a sorte, adormecê-los no catre deslembrado dos dias é despertar o infortúnio, acostumar-se a tal situação - a de viver com pouca sorte - é mergulhar o destino em um estado de abatimento e o espírito em uma postura carregada de prostração do que não pode resultar, nem a nós nem à nossa descendência, nem ao momento da espécie que sob o planeta compartilhamos, outra coisa senão a vida anódina dos cínicos, que a si se justificam, mais que reparam, paralisados por auto-condescendência algo estúpida, do que resultam privações notáveis, perceptíveis, muito embora seja por vezes necessário o silêncio da noite, o silêncio insone de uma consciência inquieta, para que percebamos, no dia que passou, tudo o que sucessivamente perdemos de oportunidade sem que haja uma explicação suficientemente racional para que tantas coisas dêem erradas em nossas vidas. Erradas?!

É que um erro sempre atrai outro. Este ciclo o que podemos alterar com a nossa disposição reparatória. O ideal é que cheguemos ao final dos dias no mais absoluto e supremo zero a zero com a existência, sem dívidas. O empate é, assim, o melhor dos resultados.

Os papéis velhos podem esperar, os erros, não.



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