30 de dezembro de 2017 às 16:00
Supercordas
Há muitas formas e modos de raciocinar, boa parte delas, cada vez mais, empregada em operações utilitárias. Essenciais, sem dúvida, para solução de problemas quotidianos que nos acompanham ao longo dos séculos, mesmo milênios, sem contar o que vamos inventando pelo prazer mero de suscitar problemas para nossas vidas. Ou, então, como resultado mesmo de algumas destas soluções que engendramos. Enfim, uma confusão dos diabos!

O pensamento reflexivo, contudo, remete-nos a nós mesmos na gênese de nossas ações. E, muito lentamente, num passo vagaroso, acaba por revelar a teia de supercordas de onde se originam nossos impulsos primordiais e suas motivações mais remotas, tanto no espaço como no tempo - lição que tiro aqui de empréstimo da Física para uma percepção do que seja o universo impalpável da vida do espírito. Onde a carne em combustão exerce seu papel essencial, de fundamento do mundo dos vivos.

Este exercício do pensamento, posto ao espelho de nós mesmos, percebi ao longo dos anos, precisa fazer-se acompanhar de um voto de silêncio ensurdecedor em relação às regras do jogo da vida ou às leis subjacentes ao pensamento. Não dá para falar muito a respeito. Tudo que nos cabe nesta seara de deslindar o invisível - por diminuto ou por excessivamente grande que seja - é acreditar na condição de vasos comunicantes que somos e fiar-se de uma comunicação subliminar entre as pessoas. Ou seja, o outro precisa entender principalmente o que você não disse!

Estes olhos de ver resultam deste tipo de pensamento e vêem com tamanha nitidez que podem enxergar através dos tempos, sem aprisionar-se às ilusões que povoam a aparência das coisas. Mas, se dissermos o que não pode ser dito, o pensamento vôa, escapa e foge para mais longe a fim de proteger-se de sua possível destruição. Portanto, aí está do que não posso mais avançar.

Mistério difícil, este. Para uma época de hiperinformação. Mas, arrisco dizer: quem sabe, cala, e quem não sabe, bate a matraca. É preciso, pois, prestar atenção ao que está quieto se quisermos compreender, de fato, como as coisas funcionam e porque elas acontecem de determinado jeito e não de outro. Xadrez penoso.

Há ilusões que devoro, como sonhos de padaria, e pessoas a quem empresto os meus ouvidos. A atenção que tudo isso me exige, entretanto, nasce de um voto de silêncio estarrecedor à visão, numa simples mirada, da complexa paisagem das supercordas que estão infinitamente adentro de tudo. Adentro de nós. Trançando tudo.


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