01 de janeiro de 2018 às 16:00
Sanatórios metropolitanos a céu aberto

Manter a crença de que a realidade faz sentido tem sido o maior dos desafios para mim, ao longo dos anos. Parte desta dificuldade deve-se, por óbvio, a incapacidades pessoais. Outra parte, porém, impossível também não considerar, deve-se, sem sombra de dúvida, à própria realidade como ela se apresenta para gente como eu, que vive muito abaixo da linha de decisão de tudo que nos afeta diretamente sem que sequer estejamos aptos a discernir com plenitude as suas causas.

Há um vácuo efetivo entre as muitas instâncias do real como hoje o entendemos, de tal modo que é praticamente impossível ter uma percepção unívoca capaz de dar conta desta realidade de um único ponto de vista. Por oposição, portanto, somos chamados ao equívoco, isto é, a uma percepção múltipla e não raro contraditória dos mesmos fenômenos quando analisados de diferentes perspectivas.

Assim, ao ouvir as argumentações coerentes do ministro da Fazenda do governo que ora se despede (1995-2002) tem-se a nítida sensação de que tudo o que foi feito no Brasil, nos últimos oito anos, se não foi o mais acertado, o foi pelo menos o melhor possível dentro das circunstâncias dadas. Há explicações razoáveis para todos os números negativos das estatísticas, há inclusive números positivos que são muita vez deslembrados, recorda o Ministro, e, o pior de tudo, há nele mesmo - um homem honrado - uma convicção enfática de que não existe outra alternativa para o país senão seguir em frente, pelos próximos anos, com o receituário aviado pela banca internacional para nossa recuperação econômica.

É forçoso - por força mesma da realidade - concordar com o Ministro que as tarefas com que estamos a braços no Brasil superam de muito uma ou duas gerações para se chegar a termos compatíveis aos padrões das nações industrializadas, não há dúvida.

Essa visão de longo prazo não é privilégio do Ministro, mas, antes, fruto do amadurecimento político decorrente da tênue prática democrática de uma sociedade inteira saída dos porões de uma longa ditadura militar...

Contudo, para nós que nos movemos pelas filas dos bancos, às voltas com o pagamento de planos de saúde e de mensalidades escolares, pegos pelo aluguel ou a prestação da casa própria, reféns do medo de bandidos armados até os dentes e a ação equívoca das polícias, em cidades cada vez mais desordenadas, a sensação que se tem é de que tudo por aqui é, na verdade, para ontem. Ou antes-de-ontem! Ou trasantontem, como gostava de dizer papai.

Aí me afundo, aí me deprimo. Nesse descompasso entre a realidade in natura, como se apresenta em minha casa, em meu bairro, em minha cidade, e sua interpretação a partir de fundamentos macroeconômicos (seja lá o que isto quer dizer) produzida por condutores de políticas públicas tutelados por instituições financeiras de âmbito internacional, para quem nossas vidas, minha vida, vida de meus filhos e neta, resumem-se tão somente, quando muito, a um traço nos gráficos.

Quero aderir à realidade, colar-me a ela como a tatuagem de papel ao braço de minha pequena de seis anos de idade, quero levar o Ministro a sério não apenas por uma questão de respeito às instituições democráticas, mas também de um ponto de vista humano - o que se me parece essencial à própria noção de democracia como prática e conceito. Mas, é difícil.

Ao retornar às minhas próprias contingências e circunstâncias, depois de ouvi-lo com a atenção que julgo merecida, a sensação de desânimo que me abate é tão profunda quanto aquela que experimento todas as vezes que retiro um extrato de minha minguada conta bancária e constato os sucessivos saques de tarifas praticados pelo banco sobre operações que sequer consigo identificar direito. São seguros que não contratei - e que apenas fazem parte das metas do gerente -, são pequenas taxações disso e daquilo que quotidianamente recaem sobre um saldo por vezes insuficiente e tudo mais de que se vale o sistema financeiro nacional para auferir seus lucros fantásticos.

Nesses oito anos em que o Sr. Malan esteve à frente do Ministério da Fazenda, os bancos que operam no país experimentaram margens de lucro de desanimar qualquer setor produtivo da economia. E o Ministro insiste, ainda, que crescimento econômico está ligado, entre outros fatores, ao aumento da produtividade nas empresas! Mas, como? Como vamos aumentar a produtividade no país se a quase totalidade dos recursos está concentrada em poder exclusivo dos bancos, que cobram por eles juros escorchantes?

São portanto muitas as realidades que experimentamos simultanea e equivocamente. O capitalismo como modo de produção sempre primou por certa dose de esquizofrenia em seu funcionamento, essa dissociação da realidade, menos que uma deficiência de minha parte ou do homem comum que se arrasta ao chão das ruas, é um princípio do próprio sistema de produção, cada vez mais esquizóide, cada vez mais falto de parâmetros de realidade, cada vez mais entregue à insanidade de jogos especulativos do capital que tem por regra - única - ignorar a existência real das pessoas e suas circunstâncias reais, como o ato de comer, morar, vestir, educar-se, amar, divertir-se e, last but not least, trabalhar honestamente para ganhar o seu sustento. Uma excrecência medieval em meio à jogatina contemporânea.

Resultado mais imediato e visível desta crescente dissociação: as grandes e médias cidades brasileiras se parecem a cada dia mais com autênticos sanatórios metropolitanos a céu aberto, onde medidas paliativas se sucedem umas às outras com resultados sempre insuficientes.

Novamente, é preciso dar razão ao Ministro. Não há soluções mágicas. Principalmente em relação à explosão da violência urbana, o que mais nos assusta. Se o fenômeno da criminalidade precisa ser combatido com políticas públicas de repressão - tolerância zero -, o que dizer igualmente da morosidade de um judiciário corrupto, o que dizer de um sistema prisional apodrecido como o que temos, sendo que nenhum destes elementos humanos - nem o criminoso à solta nem o detento apenado - cabem nos cálculos dos fundamentos macroeconômicos que determinam nossos destinos como indivíduos?

Dificilmente, o ministro Pedro Malan, o presidente Cardoso, os Salles do Unibanco, os Setúbal do Itaú, e todos esses honrados representantes da elite brasileira serão vítimas fortuitas de balas perdidas, essas misérias só nos acontecem a nós. Portanto, dentro do princípio esquizofrênico que rege o capitalismo, ainda somos nós, o homem comum, na posse de nossa insanidade, os principais interessados em pensar soluções que efetivamente humanizem a vida neste país. E livrem nossas peles de suas esfolações diárias em nome do lucro.

Somos nós que vivemos ameaçados, não as elites, somos nós, a classe média e os miseráveis que não constam das melhores estatísticas os que pagamos a conta da farra da banca, não dá portanto para levar a sério a seriedade impertinente do Ministro - ele só pode estar de sarro com a nossa cara de otário!

Tudo em nome dos tais fundamentos macroeconômicos que recaem sobre nossas microvidas provisórias.


 

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