02 de janeiro de 2018 às 16:00
O desenho das horas

É claro que como escritor sonho com a ocasião de investigar a memória e fazer e responder a algumas perguntas que - como pessoas - normalmente evitamos. Sei muito bem, talvez devido ao teatro e à dramaturgia, elementos onde encontro o melhor de minhas forças, que a personagem depende sempre de um empurrão do autor. O que seria de Hamlet sem o auxílio luxuoso do bardo, e Iago, então, coitado, por que ridículos naufragaria?

O quotidiano é a arte de ser cruel consigo mesmo, é a prova cabal, evidente e loquaz da necessidade humana da auto-imolação. Vivemos por aí trombeteando a alegria exatamente porque vivemos de um modo estruturalmente triste.

Por uma pedagogia da alegria, mestres!

Por favor, senhoras e senhores, considerem esta hipótese, admitam de si para si que a rotina física e mental que nos impomos é de deixar Pavlov [1849-1936] de cabelo em pé e seus cães salivadores a se sentirem os mais criativos e imaginativos dos animais!

Como personagens de nós mesmos - é o que quero dizer -, somos na maioria das vezes desinteressantes e banais. Ao extremo! Faz-se mister que um autor nos edite e decupe para que resultemos, ao fim e ao cabo, um pouco menos enfadonhos em nossa mesmice abismal. A maioria de nós em nada surpreende ou muito pouco acrescenta de diferente ao desenho das horas, mesmo nossa autenticidade tende a se diluir por completo, no fluxo dos dias, perdemo-nos de nós mesmos com facilidade extrema sem que muita vez saibamos sequer que estamos perdidos.

Dizemos o que esperam que se diga, pensamos a partir de pensamentos já colocados, experimentados e aceitos, pouco arriscamos, em particular no que refere à invenção das relações sociais.

O mundo experimenta o contrário das expectativas que tínhamos por volta dos anos 1970, o terceiro milênio começou conservador e pragmático em excesso, o utilitarismo conceitual empurra os homens aos braços da droga, porque vivemos de modo anti-natural com relação aos nossos instintos e desejos. E, em particular, em relação à alegria de viver do macaco macambúzio.

A maioria de nós precisa igualmente de sexo e desejo tal e como de amor e disciplina. Treinar a mente para circular por tais estados mentais e sentimentos sem aprisionar-se às rotinas que sugerem parece-me a mim o mais desafiador em tudo isso, vir a envelhecer sem se preocupar demasiado com isso, ainda que valham as avaliações periódicas. Nada de pensar demasiado na morte da bezerra, o négocio é ir em frente, sempre alegre e sempre em frente, a braços com limitações inúmeras e imensas, enganações múltiplas e dispersas, faces obscuras. Luas pretas.

O grande desafio está em conhecer-se a si, dizer os efes e erres de seus próprios truques e que este revelar-se seja, por outro lado, uma ocasião para estar com o outro e também de vir a conhecê-lo como ele é. Ou deixou de ser! Enfim... Será que terei esta oportunidade de não evitar a mim mesmo?
 

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