03 de janeiro de 2018 às 16:00
A cloaca púrpura
Às vezes, não temos a mínima coragem para ver a cloaca em que vamos metidos. Desiludir-se é salgar-se com grãos de areia ao sol escaldante do seu deserto pessoal, isto é, por vezes, desiludir-se é de uma cegueira ofuscante, principalmente para gente como nós, habitantes de cavernas urbanas, frágeis seres econômicos e sociais, gente sem expressão, já sem alma nem essência do ser, nós, pura função matemática, coisa estatística, negações ambulantes de humanidade que pervagam por interlúdios penumbrosos de um tempo que se dilui antes mesmo de chegar a constituir-se inteiramente.

E o mesmo se passa com muitos de nós, dispersos em si a sonhar a unidade desejada, quando tudo que, de fato, somos resume-se a fragmentos aos punhados e aos pedaços.

Iludir-se é, muita vez, manter o equilíbrio precário das condições mínimas de temperatura e pressão indispensáveis à sobrevivência, não obstante sobreviver seja em si uma arte totalmente fora de controle. Mistério absoluto. Dados de Deus no pano verde das metrópoles.

Olho para a cloaca em que vou metido até o pescoço sem querer devassá-la com sequer um olhar penetrador ou penetrante, bastam-me as dores ao longo da superfície do corpo e outras em seus interiores, não preciso, além de tudo, praticar o esforço vão de desvelar com palavras ou pensamentos presumidos o negror em que se guardam os fios de meu destino e mesmo sua finalidade última, que me é posterior e alheia.

Basta-me olhá-los a pender do teto ou subir do chão como vara de manipulação para compreender a intricada mecânica quântica deste drama real-irreal que é a vida. Qualquer vida.

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