04 de janeiro de 2018 às 16:00
Quando há uma disputa real
O título desse artigo retirei-o de uma entrevista do senador Arthur Virgílio (PSDB) a O Globo (24/2/08), a respeito de sua intenção de disputar a indicação do partido como candidato à presidência da República, em 2010, "forçando" - expressão do jornal - os tucanos a adotarem o modelo americano (sempre ele!) das primárias partidárias.

Creio, sinceramente, com a pena da galhofa e a mirada da melancolia, que todos os democratas desse imenso país deveriam entrar no primeiro fusca que encontrassem estacionado à beira da calçada, fazer uma ligação direta na chave de ignição, e rumar, decididos e em romaria, ao gabinete atapetado (atapetado por benesses indizíveis e gordas mordomias) do nobre senador amazonense para saudar-lhe a intenção, que duvido muito chegue a se transformar em atitude, menos ainda em iniciativa. Que dirá em doce realidade...

Mas, devemos fazê-lo! Insto-nos, incluindo-me, por óbvio, entre essa meia-dúzia de três ou quatro parvos desavisados que acreditam na instituição da disputa real como a melhor terapia para os muitos males que nos assolam como povo e nação e que longe de serem, estes males, manifestações de um suposto ataque viral (externo) ao equilíbrio do organismo nacional, resultam tão somente do estranho pacto de convívio que se estabeleceu nestas terras, desde o pacto colonial, e que nunca mais foi desfeito ou refeito.

O PSDB, como se sabe, é uma representação relativamente moderna do patriciado brasileiro, responsável, entre outras coisas, pela manutenção do nosso arcaico modelo de estado patrimonialista (baseado na apropriação do público pelo privado), de onde se excluem conceitos preciosos à construção do pleno estado democrático de direito, tais como oportunidade econômica para todos e educação de qualidade para todos.

Portanto, esperar que este partido adote o modelo das primárias e estimule a disputa real, enquanto viverem Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aécio Neves, aquele cearense milionário que me foge o nome, e outros próceres notáveis do nosso patriciado, é o mesmo que tentar ganhar na megasena com um cartão de seis números. Acontece, mas é estatisticamente improvável.

A democracia, contudo, mãe da disputa real, é hoje inteiramente improvável! Portanto, meus caros, a pergunta é: onde está o fusca e quem aí sabe fazer ligação direta? Eu não sei, mas acho que devemos manifestar nosso apoio restrito ao senador do Amazonas, o inferno verde que estamos incumbidos de transformar em purgatório bege... Devemos nos agarrar a toda oportunidade, como à tábua o afogado, do mesmo modo que, acredito, devemos descartar todas as ilusões. Por isso, disse apoio restrito. Restrito às nossas esperanças, dissipadas as ilusões - que estas deitamos ao passeio da avenida Presidente Vargas (sempre ele também!), no Rio de Janeiro, por ocasião da campanha das Diretas Já (1984) e que vimos agonizar, por fim, em 2005, quando se revelou afinal o significado oculto da sigla do PT ao chegar ao governo federal: perda total!

Sem ilusões, portanto. De qualquer forma, o modelo das primárias americanas, assim como a liberdade de imprensa, ainda é o melhor que conseguimos inventar, até aqui, no esforço sobre-humano de instituir a disputa real como regra do jogo. Humano.

Se há algo pelo que lutar no mundo, hoje, é isso: que haja disputa real, que haja livre concorrência dentro de regras pactuadas por consenso que garantam a legitimidade dos resultados e, principalmente, a continuidade do jogo dentro dessas regras. O contrário disso é o que se vê pelos morros cariocas, terror e morte, vidas ceifadas sem que desabroche a flor de sua plenitude, e que descem gradativa e lentamente ao asfalto, tomam o interior dos condomínios blindados, como rama daninha que se arrasta, rasteira, até a desordem total, a plena insanidade de armas e drogas como fonte de poder e ordem social entre jovens incultos...

Claro! estou pintando um quadro apocalíptico apenas porque me chamo Arnaldo e é da natureza dos Arnaldos o sobretom - acentuado - de revelação e urgência. Mas, tirante a tinta messiânica, o fato é que a doença mental rompeu de muito os limites do tolerável para se constituir, hoje, mesmo em níveis mundiais, em preocupante caso de saúde pública. É o aquecimento global no interior das sociedades! Drogas e armas transformaram a insanidade em endemia, a caminho de se converter em epidemia e, depois, pandemia, se nada for feito para reverter este quadro.

As primárias do PSDB seriam sim um bom começo, pouco, é certo, mas bom, remoto, decerto, quase impossível, concordo, mas prefiro o quase. Quase é alguma coisa, melhor do que coisa alguma.

Barack não seria Obama sem as primárias do Partido Democrata; a coisa é tão empolgante por lá, na América, que mesmo um rematado ignorante como eu, com meu inglês ginasiano, acompanhei com vivo interesse o último debate entre os dois aspirantes: ele com uma pinta de lider tribal de terno e gravata e ela com aquela cara de paisagem e a dor comovente que os Cohiba do salão oval lhe impingiram para sempre...

Mas, é empolgante! Isso o que importa na vida, em um mundo de cinzentos Putins e governantes com a cara e a mentalidade do Mad.

As primárias organizam o interior dos partidos, oxigenam-lhes as vias respiratórias, seu contato com a sociedade como um todo, revigoram-lhes as reumáticas estruturas ósseas de interesses comesinhos, promovem realinhamentos, permitem suscetibilidades, delicadezas, sutilezas conceituais e simbólicas. Claro, não alteram em nada o núcleo de poder mundial, fora e acima de qualquer primária, mas muita coisa pode ser vista e discutida a partir do desencadeamento de seu processo e isso é válido, nos anima e empolga. Muito mais que os reality shows!...

Portanto, para o fusca, democratas do Brasil! Rumo à Brasília e a Virgílio! Levemo-lhe nossas esperanças, desiludidas e pessimistas, de que consiga dobrar FHC, Serra, Aécio e o cearense - o Calma, boneca! agora me lembro. Dobrar que digo não é que eles concordem em realizar as primárias, isso eles podem até concordar (dependendo da voz rouca das ruas), dobrar que digo é que o senador consiga, por milagre, fazer-lhes crer na disputa real.

O Brasil, desde o pacto colonial, abdicou da disputa real, restrita a alguns poucos resultados esportivos não manipulados. A disputa real pressupõe a oportunidade real, a discussão real, o debate real. Tudo isso está por ser inventado (ou copiado) no Brasil. Aqui, os reultados já saem prontos e acordados do forno. O forno funciona sempre na casa de um manda-chuva ou capa-preta de plantão, devidamente sacramentado pelas forças políticas reais, onde se reunem às vésperas de qualquer decisão os bookmakers dos nossos resultados vitais. Tutti buona gente! Nenhuma vocação ou convicção democráticas, ou seja, nenhuma confiança nas regras do jogo que eles próprios instituem, arbitram e controlam, portanto, nenhuma chance de disputa real.

Conseguimos organizar o capitalismo (quase) sem concorrência, instituímos o cartel como regra e o oligopólio das oligarquias à sombra do erário público, transformamos a burocracia estatal em cabide de empregos (para compensar o butim contumaz aos cofres da Viúva, mal remunerar os paus-mandados da administração pública nos estados e bem remunerar os paus-mandados da administração federal) e, assim, afastamos de nossa realidade, de nosso dia a dia, o que o nobre senador chama, sabiamente, de disputa real.

A disputa real ficou, aqui, restrita aos campos de várzea, de onde continuam brotando, aos borbotões, os talentos mais bem remunerados do futebol mundial. Coincidência? Acaso? Ou, disputa real? É justamente o que não permitimos que aconteça igualmente nas universidades, nos meios militares, na televisão etc. Disputa real. Viva a fraude e a manipulação! Viva o resultado acertado de ante-mão na alcova ou no anexo do salão, país de reservados...

Nossas escolas abominam a competição entre os alunos, enquanto os preparam para o vestibular! São essas sandices que se passariam a limpo em um país com o sistema de primárias partidárias funcionando a pleno vapor e com disputas reais em todas as instâncias cabíveis da vida pública.

Por isso, convoco o fusca. Estou certo de que não mudaria grandes coisas, mas seria mais empolgante. Perder e ganhar fazem parte da vida, que é também um grande jogo - mesmo que eu, pessoalmente, aja mais como fundista, sou adepto do esporte competitivo e da competição. A questão toda, o desafio, está em fazer valer a regra do jogo diante de uma maioria avassaladora de trapaceiros, país de bandidos e ladrões que somos. Mas, é um desafio e tanto. É a estrela de uma vida inteira.

Se você abole a disputa real, o que resta para a maioria? Se você some com a oportunidade das prateleiras e das ruas e bota em seu lugar o compadrio espúrio, o jeitinho, a ação entre amigos, o que resta para a maioria? O roubo, a trapaça, o logro, o furto, a volta, o rolo. E o que nos legaram as nossas ilustres elites senão a sacanagem, o conchavo, a adulação, a subserviência, a mamata, o privilégio e a triste convicção de que não há como ganhar dinheiro honestamente neste país?

Como mudar esse pacto de convívio de quinhentos anos? Só com disputa real. Os agentes e os atores da nossa realidade mudariam inteiramente de perfil! Portanto, viva o previamente derrotado senador Arthur Virgílio, por quem nunca nutri maiores simpatias, mas sempre admirei a sua verve meio tresloucada. Dessa vez, para mim, ele acertou na mosca! Não vai conseguir as primárias tucanas, vai chegar a um acordo de bastidor com seus patrícios, no fim das contas, mas pelo menos sua intenção me inspirou estas notas. Me empolgou! Para mim, já valeu, estou sentado no banco traseiro do fusca à espera de algum conhecido que saiba fazer ligação direta, gente como Hillary e Obama sabem, será que Arthur também sabe? Mas, diabos, se ele estiver guiando o nosso fusca roubado não precisaremos ir à Brasília para cumprimentá-lo! Caramba, acho melhor parar por aqui!...
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