07 de janeiro de 2018 às 16:00
Uma vida para a morte
Na verdade, a morte é nossa última esperança. Esperança de nulidade ou de redenção, de recomeço ou de fim definitivo. Senão uma esperança, uma expectativa, ao menos. Algo por que, inevitavelmente, passamos todos que um dia vivos e que nos retira de todo a provisoriedade. Morrer é permanente e eterno, o quão eterno e permanente nossas mentes conseguem compreender como tal. Todas as explicações para o que não pudemos ser ou deixamos de ser repousam de certa maneira na morte e nela se renovam. Ou extinguem. O cansaço da existência, trazido por anos de derrotas e desencontros, que é o destino mais trivial do homem, divisa a morte como seu ponto de repouso absoluto, de volta ao pó primordial. E mesmo o homem virtuoso, ao cabo de uma vida de glórias, deita-se para o sono dos justos com certa consciência da implausibilidade enfadonha da imortalidade.

Este tem sido o equívoco irresoluto em que se arrasta a humanidade desde a percepção de sua própria transcendência como espírito e verdade: a idéia de que tudo se destina a uma vida post mortem. Isto posterga nossas esperanças e expectativas, a suposição de que continuaremos como hoje nos vimos em algum lugar entre o céu e a terra, onde não prospera a nossa vã filosofia.

Educados fôssemos para receber o presente de uma única vida e desfrutá-lo inteiramente no desconhecido e brevíssimo espaço de tempo de que sobre a terra dispomos; levados a perceber o prazer e mesmo a utilidade de ser bom e justo sem qualquer sombra de recompensa futura, senão a recompensa mesma de ser o melhor de si na sua infinita plenitude, por certo teríamos um homem menos condescendente com o crime e mais tolerante com o erro do que temos sido por todos esses milênios de civilização.

Não são, pois, as crenças que nos atrapalham, mas, antes, suas promessas de recompensas futuras. Coisas futuras! É preciso ser bom e justo apenas porque é satisfatório ser bom e justo. Sem qualquer expectativa futura e nem mesmo presente. O que fere a vitalidade das religiões, de certa forma, é a moeda de troca que estabelecem com as virtudes improváveis de seus presunçosos fiéis. Não há causalidade na ética e na moral. Como não o há no amor.

Infelizmente, as religiões apostam firme na causalidade como elemento coercitivo do mal de que o homem é capaz. Não me refiro às doutrinas - que autoridade não tenho para tanto -, mas às conseqüências evidentes de sua aplicação ao longo da história.

O fato é que, essencialmente, não saímos do lugar, não nos movemos um milímetro para fora da luta de morte dos arquétipos, na lama do magma de nossa constituição. As formidáveis habilidades do homem, encarnadas em multidões de indivíduos, levam avante, sem qualquer evolução no tempo histórico, o duelo de morte entre guerreiros e sacerdotes e políticos e poetas e construtores e ladrões e filósofos e juízes e comerciantes e banqueiros e assassinos etc. que se iniciou com sua própria diferenciação em um momento remoto em que deixamos de ser um para sermos vários e assumirmos assim a hegemonia de nossa espetacular diversidade, impondo ao planeta o domínio de uma inteligência metastática e autofágica e de uma sensibilidade a um tempo extraordinária e doentia.

Educados para o aqui e o agora do fenômeno de suas existências provisórias, prosaicas ou heróicas, mas, sobretudo, provisórias no aro do tempo, penso que estes indivíduos gerados cada vez mais aos borbotões seriam por si próprios instados à grande e única aventura realmente possível à vida humana: conhecer a si mesma através e só através de seu relacionamento com outras vidas.


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