09 de janeiro de 2018 às 16:00
À espera da sineta
Como suportar-se? O peso do mundo é uma realidade física para o pensamento e o sentimento dos homens. As idéias, chuva de meoritos sobre a castigada superfície de um planeta de atmosfera inóspita e nem um pouco robusta, as idéias são por vezes como as mulheres que nos tentam com suas ofertas indescritíveis de luxúria e mais não nos podem oferecer do que a miséria própria de uma cortesã enfeitada. As idéias nos chamam ao logro, nos convidam ao engano de mais um dia. Vamos, senhores, ao engano de mais um dia! Não porque sejam más nem diabólicas - como também não o são necessariamente essas cortesãs da própria infelicidade. O que se passa é que não temos como dar conta suficientemente de todas as idéias que aportam ao cais da consciência. Como também não damos dessas damas todas disponíveis. Simplesmente por um motivo: suportar-se é um mistério entregue ao enredo da vida - e não a nós mesmos como desejaríamos sob a capa de um racionalismo empedernido.

Cada um de nós faz exclusivamente o que lhe cabe, mais do que o que desejaria fazer. Os que fazem o que efetivamente gostariam, estes deviam lançar de joelhos aos céus uma prece de pleno agradecimento por seu destino, pois à maioria dos errantes sobre a Terra, estes muito simplesmente se safam de alguma forma para suportar o peso do mundo que os achata e comprime sob desterminadas condições de temperatura e pressão em que suas histórias pessoais vêm à tona em determinado momento.

Eu, por exemplo, desconfio de que seria um bom escritor se pudesse sê-lo, inda mais agora que descobri que não posso. É um paradoxo. Mas, descobri também, o movimento do mundo é todo ele paradoxal. Basta que você diga luz - e fazem-se trevas. Conforme-se verdadeiramente com as trevas, no sentido anatômico do termo - e vem a luz. Um mistério. Mistério tanto maior por não conceber o truque, invenção da linguagem humana para tapear o irremediável com a fantasia de sua invenção. Não. Não adianta dizer luz quando se quer trevas para que advenham trevas (é preciso admitir, a despeito de tudo, que também desejamos trevas) e nem muito menos dizer trevas quando almejamos que nos venha a luz. Não é assim que a coisa funciona. O Universo por vezes parece carola, ou mesmo infantil. Mas, o fato é que em tudo que se move ou existe - parece que tudo que existe se move - há um apelo de uma espécie de sinceridade essencial que não pode ser apanhada por estratagemas ou falsificações. É o imperativo categórico da verdade, esta que se impõe a todos, velada ou, de preferência, desveladamente.

A vontade tem sua importância. Vide Picasso. É, porém, secundária. Estamos dentro de um grande enredo cósmico, lutando com nossos papéis menores. Não há muito o que fazer, embora isto horrorize - por herético - uma boa parte das convicções do Ocidente. Sinto muito. Não posso fazer nada quanto a isto também. Basta o peso de suportar-me a mim mesmo e ver fluir pelas pontas dos meus dedos em direação ao ralo da existência idéias tantas - como tantas moças - a que não pude dedicar a meticulosa atenção que gostaria, que teria vontade pessoal de fazê-lo, por estar contido de alguma forma dentro do meu próprio enigma. Por vezes, socialmente impedido de tantas realizações. Na maioria das vezes, contudo, apenas consciente dos mecanismos inexplicáveis que nos levam por este e não aquele caminho sem que saibamos ao certo porque tudo acontece de determinado modo e com assombrosa riqueza de detalhes.

Não tenho explicações. Escrevo para acalmar-me. Suportar-me. À espera da sineta. O recreio pode ser, por vezes, a hora de parar. Parece que fiquei preso no colégio para sempre...


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