22 de janeiro de 2018 às 00:00
Gaudí de arestas

(para Simone)


Posso te querer
Sem desejar
Posso imaginar
Sem nada ver
Posso a ti me dar
Sem receber
Posso me entregar
Nada obter
Posso me mostrar
Com meus rabiscos
Posso te olhar
Mas sem ser visto
Posso me expor
A correr riscos
Posso me envolver
Mesmo ao aprisco

Posso quase nada
E posso tudo
Posso quase tudo
E posso nada
Posso ser a poça
Na madrugada
Posso ser a moça
E seu entrudo
Posso ser a roça
À alvorada
Posso ser a seda
E seu veludo
Posso ser a troça
E a cavalgada
Posso ser a traça
Que rói o mito

Posso me fartar
Só de conversas
Posso conversar
Só por emails
Posso construir
Gaudí de arestas
Posso empreender
Sem ter os meios
Posso compreender
Que não te posso
Posso ter a posse
Sem ter a terra
Posso ter a fome
Sem apetite
Posso ter o sono
Sem arrebite

Posso te cantar
Sem voz e coro
Posso te pintar
Sem ter pincéis
Posso te tocar
Sem mãos, anéis
Posso te abraçar
Ao vento, mudo
Posso ter a sede
Sem pedir água
Posso ter o sonho
Sem guardar mágoa
Posso ser teu pão
Sem ser o forno
Posso ter a rosca
Sem ter o torno

Posso ter o dom
Sem ter a arte
Posso ter a parte
Sem ter o todo
Posso ser o lírio
Sem ser o lodo
Posso ter o céu
Sem ser a águia
Posso ser jardim
Sem ser a praça
Posso ser teu mundo
Sem ser a casa
Mas, não posso amar-te
Sem tuas asas

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