28 de janeiro de 2018 às 16:00
Pontos de vista
Geralmente, analisamos o tempo presente com olhos do passado, é quase uma condição obrigatória. Com que outros olhos poderíamos olhar, então: com os olhos do futuro? Mas, como, se o futuro só nos chega a nós quando morto em nossas mãos, exangue de correr pelo labirinto do presente a fugir do minotauro? Só temos mesmo estes olhos pretéritos para contemplar o resultado do que fizemos. Não é muito.

Isto, de determinado ponto de vista - bem entendido -, pois o dado inesperado da vida é exatamente este, sua descentralidade. Com efeito, considerada a lei da gravitação universal, tudo mais abaixo dela desloca-se sob o próprio centro, saiba disso ou não. O que significa infinitos pontos de vista disponíveis no Universo para a compreensão do mesmo objeto - ou fenômeno, se preferir - e, dependendo de como a coisa é vista, seu significado salta inteiramente de lugar.

E mais: ao saltar não é apenas o objeto que se modifica em seu significado essencial, mas também o observador que o percebe por novo ângulo e todo o conjunto de relações em rede a que um e outro estão ligados, o que recria, assim, inteiramente, não apenas um objeto e seu ponto de vista como todo o seu ambiente originário.

Por exemplo, quando Augusto dos Anjos morreu, Bilac disse Não se perdeu grandes coisas. Entretanto, o ponto de vista de que hoje se observam as esquisitices metafóricas deste autor extemporâneo e esdrúxulo ao parnasianismo dominante da época, obriga mesmo os cultores da forma e do vernáculo - e os admiradores do florete de Bilac, dentre os quais me conto - a reconsiderar por inteiro a visão de todo aquele universo poético do início do século passado e reconhecer a estranha singularidade de uma linguagem (a do Augusto) marcada pela apropriação apropriadamente imprópria - e jamais indébita! - de termos e conceitos inusuais que expandiram por regiões impensáveis o exercício da poesia desde então. Neste sentido, creio, o verso brasileiro contemporâneo deve mais a Augusto dos Anjos que a Olavo Bilac. É mais provável que o rap e o hip hop caboclos dialoguem mais com o primeiro do que com o segundo.

Nestes termos, a invenção para ambas estas formas contemporâneas de discurso poético estaria mais em ir conversar com o segundo (Bilac) do que com o primeiro (Augusto). Paradoxos da ação do olhar e do desequilíbrio dinâmico dos acontecimentos.

Nada disso, contudo, impediu que a seu tempo Augusto levasse uma vida sob muitos aspectos profundamente infeliz, ao passo que Bilac, ao que parece...

Houve um tempo, não muito distante, em que a justificação futura se me parecia capaz de sustentar todas as mais intrincadas e miseráveis decisões presentes. Homens que se metem no beco de destinos ingratos para gerar, com isso, realidades pósteras que animem uma reavaliação de suas escolhas drásticas diante da vida. Creio que se trata de uma idéia recorrente, cultivada de muitas formas e modos ao longo da história do homem, seu comportamento e seu pensamento.

É a síndrome do exemplo! Alguns de nós saltam à frente da espécie, como contorcionistas ao picadeiro, e fazem lá uma série esplêndida de macaquices a fim, com a melhor das boas intenções, de ampliar o nosso conhecimento acerca de nós mesmos. Muito que bem. Só que esta expansão, óbvio, mexe com equilíbrios anteriores estabelecidos e nos quais alguns segmentos de nós gozam incríveis deleites. Aí começa a perseguição, a extração contumaz de bagos e grelos dos que querem nos ensinar, com as tais macaquices, a gozar a vida de forma nova. E pau neles!

Creio que Augusto dos Anjos, Van Gogh e muitos outros artistas enquadram-se precariamente nesta descrição - igualmente precária. Ao Bilac, os cadáveres! Ao Augusto, um empreguinho no cu de Minas! São as esfolações de hábito aos cultores de novos hábitos, temos de encarcerá-los, alijá-los, separá-los a bem de não se confessar nossa pouca propensão à invenção e o quanto somos, em suma, uma cambada de símios acomodatícios!

O Cristo, por exemplo, tanto abusou das estripulias e números de efeito que o dependuraram na cruz. E hoje dão mais importância às circunstâncias de sua morte do que à excepcional inovação de sua mensagem - ama a ti mesmo, sua besta! Algo impossível para nós! Meu pai costumava repetir para mim, estupefato após tempos de estranha meditação em círculos: é muito difícil, Arnaldo, muito, muito difícil amar o próximo como a ti mesmo! É praticamente impossível, creio, dizia. E crispava o olhar em direção ao alto, desanimado, vencido por si próprio.

Mas, pensando hoje, na qualidade de um homem também vencido e desanimado, entendo de modo novo o enigma do Cristo. Quando dizia Ama teu inimigo, penso que dizia Ama a ti mesmo, infeliz. Acho essencial o acréscimo do infeliz, não abro mão! Pois apesar de todos os parques temáticos do mundo que congregam adolescentes tardios de latitudes tantas, e talvez até mesmo por obra da existência de ambos - parques temáticos e adolescentes tardios - a humanidade como um todo chafurda ao modo dos suínos na abundância de sua própria infelicidade. Mas, não se vá crucificar os donos dos parques temáticos por isto, ahn?...

Portanto, do meu ponto de vista, não há mais porque sacrificar-se pessoalmente pelo crescimento espiritual da espécie. Como o fez o Cristo e tantos outros.

Um ponto de vista novo: que o homem comum se vire com seu próprio ódio por si mesmo e pare de cumprir o seu papel ridículo de claque universal da barbárie. Abaixo os polegares das arquibancadas sanguinolentas!

O problema é que estamos todos enredados nesta goma de mascar que é o universo simbólico do homem. E o movimento de um implica o deslocamento de outro. Um buraco, isso! Mas, é assim. Não há como fugir. Por isso, se fazem os versos fantásticos de um Augusto do Anjos e a extraordinária pintura do mutilado - auto-mutilado - Van Gogh e tudo mais que considero de bom a despeito do horror de tudo mais. Não é que eles o queiram fazer. É que eles não podem deixar de fazer aquilo que os faz ser o que são, mesmo no lodo de uma humanidade que desaparece tragada pelo pior de si mesma. Vamos enredados! Não há como separar o joio da jóia, esse o grande mistério.

Imagino que Deus passa os dias dando longas e largas risadas - entre uma baforada e outra ao charuto insólito - pela invenção de seu brinquedinho, de vez em quando cutuca Satã, o ajudante, e ambos dobram aos joelhos, premem a pança, a cada nova imagem estulta que produzimos na tela. São muito parvos! Repetem enquanto gargalham. Quá! Quá! Quá!... Claro que há cenas dantescas que quase os comovem, afinal, uma multidão de inocentes é sacrificada diariamente nas mesas de câmbio de Wall Street por simpáticos rapazes gomalinados. E ninguém sequer os supõe como entes reais nos confins do Afeganistão ou nas vielas da favela da Maré, no Rio de Janeiro. De qualquer forma, tudo isso, essas imagens dantescas, só são factíveis como pensamento-a-ser-desmontado para almas penadas como Augusto e Vicent e outros doces tolos, para o conjunto da espécie fazem tanto sentido quanto a informação de que os dinossauros reinaram por duzentos milhões de anos sobre a Terra - foi isso mesmo? Caramba!... E lá se vão os miolos de um recém-nascido pelas mãos de um policial brasileiro ou um soldado (soldado?!) sérvio. O que significa? Nada. Não significa mais nada. A própria dor perdeu o sentido. Vivas aos parques temáticos do mundo e aos adolescentes tardios que os justificam! Estamos mesmo fornicados!...

Não há fuga. Vamos para o beco. Pouco importa que tudo vá desabar como as torres gêmeas, o fato é que não sabemos o que fazer e, pior, não há o que fazer. De alguma forma, já vivemos na matrix. O mundo como palco dos acontecimentos desprendeu-se da vontade humana - por um intrincado emaranhamento de vontades humanas, inumanas e desumanas - e estabeleceu uma realidade autônoma, autômata. E agora é isso: qualquer observação acerca do panorama visto da ponte faz do apocalipse de João algo ingênuo como o filme The Wall, de Alan Parker, diante de tudo que está acontecendo. A irrealidade dos fatos, esta que desagrada aos idiotas da objetividade, empurrou Jean Baudrillard para a prateleira de livros infantis. Durma-se com um barulho desses!

No entanto, o homem comum dorme. O sono dos justos. Ele trabalha. Ele lava os pratos na lavadora automática. Ele tranca os vidros do carro. Ele só não sabe o que fazer com os explosivos atados à sua cintura.

E são os artistas e os pensadores que vão dar conta de uma situação como essa? Fala sério! O picadeiro está às escuras. Não há mais espaço para demonstrações célebres... O grande temor do Cristo era que Judas falhasse... Não há porque reabilitar o Judas, ele cumpriu o seu papel... Mas, e quanto à multidão que escolheu Barrabás? Se a democracia não suporta críticas à maioria, então, estamos lascados! Pois estamos! Ou a arquibancada desiste de se comunicar por polegares - zerinho ou um? - ou o circo literalmente pega fogo! A temperatura global, aliás, já está aumentando...

Mas, lembre-se, estes são olhos do passado postos sobre o futuro morto. Algo pode surgir - inesperado, e malquisto! - do presente a partir de um deslocamento para um centro novo. Que modifique o objeto visto e o olho que o contempla. Quem sabe? Tudo é possível! Tudo é possível?! Será mesmo? Ou será esta a última das fantasias do pensamento? A mais auspiciosa, a mais redentora e a mais decepcionante...



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