31 de janeiro de 2018 às 16:00
O prisioneiro da palavra escrita
Escrever é um mistério! Primeiro, o fazemos por mera imitação. Queremos aparecer. Mas, observe, se uns imitam animais e outros animadores de televisão - o que dá rigorosamente no mesmo, do ponto de vista da mímese, bem entendido! -, alguns outros acham por bem imitar poetas e escritores. Por que? Creio que a resposta já está no ser antes mesmo que ele a si formule a cabulosa questão. Escrever. Compor. Fazer arte. Dio santo! Que complicação é ser simples, uma coisa muito difícil. Vamos escrevendo por motivos vários, a maioria deles inconsistente do ponto de vista da plena justificação do ato, mas, no entanto, a coisa flui, a mentira progride, o engano avança, a ilusão se sedimenta e lá estamos nós a braços com a inusitada tarefa de pôr em palavras alguma coisa intangível que se organiza como linguagem e como discurso no interior da imaginação - que não sei muito bem onde fica, se dentro do cérebro ou se paira, solta, acima dele, como uma espécie de auréola de santo, se é que me faço entender...

Aos poucos, percebe-se, trata-se de uma necessidade - escrever -, mais que caprixo, uma urgência - escrever! escrever! -, mais que pura vaidade... Se é que possa haver de fato vaidade em ser o prisioneiro da palavra escrita. Expressão do Borges. Basta pensar nos camaradas que disseram coisas que valem a pena prestar atenção - Sócrates, o Cristo, o Buda e outros - e recordar-se de que nenhum deles deu-se ao trabalho de deitar uma linha sequer...

Portanto, aí vai uma primeira pista concreta da natureza do ato de escrever: o sujeito não confia que vão se lembrar do que disse e trata de anotar porque acha razoável fazê-lo! Mas, não o fazemos no sentido, creio, de enunciar verdades ontológicas e universais, antes para propor o diálogo com o leitor - este, tão parvo quanto nós, tanto que passa tempo equivalente à decifração da leitura! Tarefa das mais espinhosas, diga-se, não obstante o primoroso de seu sabor íntimo... Escrever é algo incompleto, fátuo e transitório como a vida da gente, só recentemente me dei conta disto. E não achei mau. É o que é.

O escritor é mais ou menos como aquele mergulhador que revira o fundo do mar em sua passagem por regiões improváveis e suspende sedimentos do terreno à observação alheia. Age assim por alguma espécie de compulsão ontológica, sina, desgraça, chame-se como quiser, ou apenas para passar o tempo de cadeia - penitenciária a que chegou inadvertidamente com as melhores intenções de ser mais um interlocutor da espécie! Porca miséria, que tolice! A engenharia é mais útil! A medicina! E, no entanto, não são poucos os desavisados que lhe invejam o sofrimento!... Julgo, por vezes, que o escritor - tal como o ginecologista - faz jus ao chamado adicional de atividades penosas, insalobras e de alta periculosidade, não obstante tais riscos passem despercebidos mesmo aos leitores mais atentos e percucientes. (São leitores percucientes aqueles que sabem o que quer dizer percucientes, mas, não só estes).

Não escrevemos coisa alguma, de fato. Algumas coisas, sim, é que nos escrevem. E reescrevem. E quanto mais no alvo vai a seta, mais saímos dali - daquele confronto, aquela esgrima - a princípio transtornados e por fim inteiramente modificados. Está bem, vá lá, digamos que de 40% a 45% modificados. É muito para o papel da escrita, não?! Algo como a mutação de um virus.

Isto foi percebido por algumas correntes terapeuticas, ao longo do último século, que puseram seus pacientes - coitados! - literalmente para passar a limpo as suas vidas. Tive um amigo que fez uma dessas terapias hipergráficas, mas não permanecemos juntos o suficiente para eu constatar os resultados. Tudo que sei é que ele era um mau ator que queria ser ator e acabou professor de pós-graduação em engenharia. Do meu ponto de vista - distante! - a coisa funcionou!

O mesmo, lamentavelmente, não fizeram por mim os meus exaustivos e penosos exercícios de auto-análise através da escrita. Cadernos da superação. Continuo escrevendo razoavelmente mal e até agora não me animo a procurar outro emprego. Acho que isso explica a função do terapeuta, mais que da técnica - concorda? Afinal, por tentativa e erro, eu já devia estar fora desse metier há anos!

É preciso admitir, mesmo quando a gente morre de fome, a escrita tem seus prazeres e seus encantos, e o principal deles é dar asas à imaginação do leitor - o que pode sugerir um patrocínio Red Bull. Seja por que artifício for: ou pelos interstícios de uma história, um enredo, uma narrativa carregada de meandros, como - por exemplo - Ligações perigosas, de Chordelos de Laclos [1741-1803], ou por meio do exercício do pensamento como nos textos de Platão [428-347 AC], ou por meio de uma poderosa combinação de elementos poéticos e filosóficos como nas peças de Shakespeare [1564-1616]. Não há fórmulas. O negócio da escrita é atiçar a brasa da fogueira - ou da lareira - da imaginação do leitor e fazê-lo raciocinar do modo mais difícil e o único que vale realmente a pena - a saber, com o coração.



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