03 de fevereiro de 2018 às 16:00
Duas culturas
O fato é que há duas culturas bem distintas dentro da sociedade humana, qualquer que ela seja e a época: a cultura dos ricos e a cultura dos pobres. São imensas as diferenças entre ambas e que as separam por seus próprios abismos. A cultura dos pobres - a que pertenço por origem e remissão - não concebe a sobrevivência do artista. Este é um dilema insuperável.

Ser o que sou é estar fadado à cooptação intelectual por outra cultura, mantidas as ambições de realizar-me como escritor, por exemplo, o que é em si outra contradição insuperável - visto que a matéria-prima do artista são suas próprias convicções e o universo que o constitui.

Não há como obter o sustento como escritor e permanecer um pobre irredutível. Todo o processo de conhecimento é por si um processo de superação das origens do pobre e um auto-cooptar-se pelo modo de ser dos ricos, seus valores, suas atenuações. É uma dor imensa deixar de ser a si para vir a sê-lo em segunda instância, além de cacete e ridículo - é o que me deprime.

O contato com o mundo da literatura é o contato com o universo dos literatos, gente muito diferente dos pobres em geral. Compor, escrever, encenar não são atividades que se remuneram entre os pobres como, por exemplo, cortar cabelo ou amolar facas. Você simplesmente não consegue existir entre os pobres sendo um escritor ou compositor ou encenador. Tem de migrar. Tem de ascender socialmente. Tem de trocar a pele dos valores. Tem de aprender... Ora, eu já estou na idade justamente de desaprender e não tenho mais a menor paciência para a cultura alheia. Como, então, hei de ser eu mesmo? Estou fadado ao desaparecimento. Resta saber como vou fazê-lo...
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