08 de fevereiro de 2018 às 16:00
Estupidez também é cultura
Cidade livre e por natureza hospitaleira, Friburgo tem acolhido democraticamente de tudo - e a todos - desde a sua fundação. Inclusive a estupidez, que veio tomar a fresca saborosa da serra há algumas décadas e, ao que parece, daqui não quer mais sair. Assim como os traficantes.

Evidentemente, se isso acontece, conta, claro, ao menos com o beneplácito (ou inércia) de nós mesmos, acolhedores e por vezes excessivamente complacentes friburguenses. Seremos sempre os principais responsáveis por tudo que nos acontece, à exceção, talvez, dos acidentes aéreos e das mulheres que nos escolhem para amantes, evidentemente...

A estupidez, irmã mais velha e carrancuda da ignorância, como esta possui aquela convicção irreparável da certeza, não admite a dúvida, prima excluída dessa família vizinha do conhecimento, com o qual guarda relações delicadas, melindradas, suscetíveis e tudo mais que costuma vir junto com os olhos que se fecham para o outro que não é nada parecido conosco...

Friburgo, neste exato momento, vai cometer mais uma de suas estupidezes contumazes. Quem não se lembra das demolições do Theatro D. Eugenia, do Solar dos Salusse, da casa de D. Vitalina, do Cine Eldorado e de tantas outras expressões arquitetônicas de nossas história e memória, postas abaixo pela engenhosa fúria de moderníssimos e pós-moderníssimos incorporadores (saravá!) imobiliários, sempre preocupados com a última moda da corte (que atualmente mudou-se para Miami, basta observar os prédios contemporâneos de vidro esfumaçado e aço aparente que já proliferam na pretensa e provinciana metrópole serrana que todos nós tanto desejamos ser (em sendo e não sendo, ao mesmo tempo). Foram estupidezes que cometemos contra o nosso patrimônio histórico e arquitetônico, contra o nosso turismo (de natureza marcadamente histórica e cultural, dadas as características da colonização).

Ao contrário dessas, a estupidez do momento marca a construção de um novo espaço cultural na cidade, o que, afora a estupidez embutida, merece aplausos e louvores, mesmo que um espaço cultural, por si só, como coisa física, não tenha como dizer ao que veio, pois será a sua ocupação e o seu uso que lhe darão a funcionalidade e o sentido possível de sua existência. Assim me parece. De qualquer forma, sempre que se abre uma casa de cultura, um teatro, no caso, nós, do ramo, exultamos. Com razão!

Tenho pelo pernambucano-paraibano Ariano Suassuna respeito e admiração infinitas e suas qualidades como artista são inegáveis como a luz quente do sol quase mediterrâneo que banha boa parte do Nordeste brasileiro, região que também respeito e admiro, cuja cultura inspiradora está na raiz do que de melhor e mais consistente vem sendo feito neste Brasil, ao longo dos séculos, em termos de arte genuinamente popular (sem concessões à estupidez, frise-se). E Ariano, não obstante membro ilustre da elite nordestina, bem representa esses valores embutidos na cultura popular de sua região por uma adesão despudorada e decidida em favor de sua gente. Motivo de mais aplausos e exemplo a ser rigorosamente seguido por qualquer sensibilidade mediana como a minha, por exemplo.

Já Julio César Seabra Cavalcante, o Jaburu, mineiro de Viçosa que aportou nessa terra fria e sem mar nos primeiros anos da década de 1960, embora goze igualmente de minha admiração e integral respeito, faço-lhe inúmeras restrições. Explico o porquê das restrições.

Meu finado irmão Girlam Miranda, companheiro leal do Jaburu em muitas e bem-sucedidas iniciativas do Grupo de Arte Movimento e Ação (GAMA), certa vez, em seu sofá de canto no apartamento da Rua Portugal, onde viveu seus melhores e piores dias, disse-me, entre um conhaque e um trago na cigarrilha:

Você diz que me ama! Ah? Me ama!... Eu também te amo! Catso! Mas, com restrições! Todo mundo ama com restrições!...

Eu era jovem e cheio de convicções à época e fiquei um pouco desconfortável com o aparente sarcasmo do mano, mas o tempo, senhor das artrites, fez-me ver, por fim, com mais brandura, a essência do pensamento que embalava aquela frase quase de efeito: as restrições derivam do hábito, do convívio, do profundo conhecimento que vamos adquirindo das pessoas que amamos e com as quais compartimos este momento único de estar no mundo. Nem tudo são flores no amor, os casamentos longos que o digam (sejam de que sexo for). Tal modo, compreendi, as restrições de que falava o mano Girlam são tão somente as restrições naturais do convívio, da convivência com os defeitos e as idiossincrasias dos que nos são próximos e caros, e nos fustigam.

É o que se passa de minha parte em relação ao Jaburu: cresci vendo e fazendo teatro com esse cara, em Friba, estivemos juntos em muitos e variados momentos ao longo da minha vida, até aqui, sem nunca lhe ter desfrutado a amizade, frise-se, sempre, porém, a sua cordialidade, a sua vasta capacidade de provocar o interlocutor com frases instigantes e, sobretudo, a sua inquietude, seu desassossego pessoano, que o fez um homem além do seu tempo e de sua cidade de escolha, embora eu conheça poucas pessoas mais adaptadas e engajadas na vida bovina friburguense do que o próprio Jaburu.

Minhas restrições, portanto, são irrelevantes! Eu mesmo, é preciso admitir, sou irrelevante! No entanto, meu pensamento dança, a língua chispa, as palavras dançam e não posso, por urgência quase fisiológica da minha pena, deixar de oferecer ao meu parco público leitor (dentre o qual contam-se na mão esquerda do Lula alguns friburguenses) uma consideração a respeito da grande estupidez que se vai praticar em Friburgo ao inaugurar um teatro municipal com o nome do Suassuna e não do Jaburu.

Ora, meu Deus do céu, a escolha de um nome nunca é fortuita. Quando meu pai quis homenagear meu avô paterno e pretendeu me batizar Azarias, mamãe, obviamente, que me havia carregado por noves longos e alegres meses, pulou! Peraí, Miranda, deve ter-lhe dito. Azarias?! O garoto nasce pobre e vai carregar um nome desses?! Tenha dó! O velho, sacana, deve ter sorrido e aquiesceu com a homenagem a si mesmo, Arnaldo, acrescida de uma referência (matreira, da parte dela) ao meu avô materno, de onde se originou, então, o Luis que me ilumina. Muito que bem.

Os nomes estão assim, cheios de significados, homenagens, reconhecimentos. E justiça. Independentemente das restrições de convívio que se façam a estes ou aqueles como é natural.

Julio César Seabra Cavalcante é, indiscutivelmente, a pessoa que mais fez pela arte dramática em Nova Friburgo ao longo dos últimos quarenta e cinco anos de atividades. Ao criar o GAMA e determinar-se a si a fazer teatro em uma cidade de sólidas tradições teatrais como a nossa - basta pensar que o Theatro D. Eugênia começou a ser construído pela Sociedade Musical Campesina Friburguense em 1875 e foi inaugurado vinte anos depois, portanto, uma das mais antigas casas de espetáculo do interior fluminense) -, Jaburu deu seqüência ao trabalho de muitos pioneiros, entre os quais se contam Julio Castilho e Jorge Saade, estimulando a proliferação de inúmeras outras formações, seja por inveja ou dissidência, seja por osmose ou simbiose, seja porque fazer teatro em Friburgo sempre foi uma das melhores formas de crescer como pessoa e entrar em contato com uma realidade mais ampla do que a que nos é oferecida diariamente na comezinha vida provinciana do insanável disse-me-disse de quem comeu quem.

Muitos, como eu, mas muitos mesmo, devem ao Jaburu a oportunidade de vir a questionar-se a si mesmo em sua robusta estupidez, por intermédio de suas ofertas inusitadas de contato com Shakespeare, Brecht, Dürrenmatt, Guarnieri etc. e muitos igualmente devem a ele o chamado para o palco e para a literatura dramática (entre os quais, para sua felicidade, não me conto), pois não foram poucos os autores incentivados por Júlio a levar as suas idéias (as idéias dele, Jaburu) ao palco! Meu irmão Girlam, por exemplo, foi um que caiu nessa...

De modo que se há um nome a se fazer homenagem e justiça na hora de batizar este horroroso prédio do nosso tão aguardado teatro municipal, este nome, no meu entender, para o bem e para o mal, aparte toda e qualquer irrelevante restrição, este nome é o de Julio César Seabra Cavalcante, lenda viva das artes friburguenses (e já meio morta também, é verdade, vez que as novas gerações não sabem a missa-metade de seus esforços em favor da cultura local). Já está por merecer uma biografia, o Julio.

Homenagear Ariano Suassuna não se explica inteiramente, senão por exercícios tortuosos de compadrio regional, não obstante, repita, o mestre nordestino faça jus a toda e qualquer homenagem. Mas, é uma estupidez! No sentido vernacular do termo, denota insensibilidade, desconhecimento da história cultural da cidade, falta de discernimento para aplicar à ocasião a oportunidade do salutar exercício de admiração e reconhecimento que constrói o patrimônio subjetivo e moral das comunidades.

Nenhuma comunidade pode sobreviver moralmente sem reconhecer-se a si em seus valores. Júlio César Seabra Cavalcante, mais, muito mais do que Ariano Suassuna, fez por Friburgo, pelo teatro e pela cultura em geral em Friburgo, muito mais do que qualquer outro artista local e, em termos empresariais, apenas Henrique Cordeiro, da Múltipla, lhe faz frente, com o finado Festival de Inverno de Nova Friburgo, mesmo assim, contando, desde o berço até o túmulo, com a colaboração firme e decidida do próprio Jaburu.

Portanto, amigos friburguenses, um brinde à insensibilidade, à descortesia, à incivilidade, à indelicadeza! São as outras primas da estupidez que estão chegando à cidade para a inauguração do Teatro Municipal Ariano Suassuna.


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