12 de fevereiro de 2018 às 16:00
O rato diante do queijo e a mola
As suspeitas abolem o acaso, os dados do destino sobre o pano verde da vida, sombreiam os encontros fortuitos, mesmo as coincidências são aniquiladas por elas, as coincidências que para muitos não existem e que Jung preferia chamar de sincronicidades, uma espécie digamos assim de relógio geral do Universo, onde uma inteligência última nos permite compreender - mesmo aos chucros de coração como eu - que é possível encontrar um sentido para todas as coisas e todas as vidas, por mais insignificantes que se pareçam ao olhar distraído.

Toda essa beleza da vida, toda essa grandeza do infinitamente pequeno acaba que vai por água abaixo em um mundo de suspeitas, de polícias políticas, de teoria geral da conspiração, de klux klus klan que se reúnem na calada da noite para distribuir bolas pretas e brancas e vermelhas a indivíduos mais ou menos aceitos por suas comunidades, especialmente em função do seu grau intrínseco de cordeiralidade ou de coioticidade para o equilíbrio geral do status quo vigente - este em que não se deve mexer nem bolir.

Evidentemente que atribuir as goteiras, infiltrações e vazamentos encontrados na psicologia dos indivíduos a processos histórico-sociais - uma prolongada e danosa ditadura militar, por exemplo - é uma operação de risco sob muitos aspectos e o principal deles seria simplificar a complexidade das pessoas, reduzindo-as aos seus reflexos mais condicionados.

Lamentavelmente, porém, esta é uma possibilidade factível e de fácil constatação, vez que estamos falando - em última instância - de sobrevivência física diante da perseguição política e de sobrevivência econômica para a manutenção de si mesmo e da própria família. Não há muito o que variar em torno de tais temas. A maioria de nós quer viver - muito embora os garotos dos sapatos-bomba e os meninos do tráfico carioca contestem abertamente esta afirmação - e portanto faremos o que estiver ao nosso alcance para entender as regras do jogo, aderir a elas e obedecê-las a bem da própria pele. A maioria de nós, pelo menos, o fará.

Não podemos, assim, minimizar os efeitos do medo coletivo sobre a sociedade e o indivíduo, algo como um chipe subcutâneo que se implanta sob a pele ainda quando a pessoa é bem pequena e recebe o seu manual de sobrevivência - escrito sem uma única palavra, mas com todas as regras indispensáveis à sua plena aplicação pela vida afora.

Longe de mim diminuir a responsabilidade dos indivíduos sobre suas psicologias pessoais e suas vidas! Ao contrário, eu a engrandeço! Mas o que se constata pelas ruas e escolas e casas e locais de trabalho desse grande país é uma multidão de gente acuada por medos e desconfianças que não se sabe muito bem de onde vêm e cuja explicação corrente reporta-se apenas à necessidade de sobreviver que todos nós temos, mesmo que esta sobrevivência se dê - como para a maioria de nós - privada de qualquer exuberância ou pujança ou crescimento pessoal, como seria de se esperar em uma terra de promissão e esperança, onde plantamos nossos sonhos e colhemos a bem-aventurança de sua realização.

Não se pode, também, atribuir todos os males à última ditadura militar ou aos militares. O fato é que a gênese do povo brasileiro está eivada de medo, obediência servil e uma porção de pequenos expedientes do fraco para fugir ao açoite contumaz e bárbaro da capatazia. A capatazia, como se sabe, é formada por aquela raça de gente contratada para bater e humilhar os seus iguais por um pouco mais de dinheiro e alguma ilusão de ascensão social desejada.

A desconfiança, a inveja, a intriga, o despeito, o impedir que o outro faça para que ele não brilhe, o ciúme oriundo do reconhecimento íntimo da própria incompetência, a preguiça ancestral, o compadrio espúrio das panelinhas que acertam na noite os resultados da assembléia do dia seguinte, a submissão por admiração e respeito, a reprodução sobre nossos filhos das regras que odiamos - uma forma de compensação por tudo que não conseguimos mudar em nós mesmos e no ambiente social ao derredor -, tudo isso e muito mais coisas estão incrustadas na psicologia do brasileiro, no âmago de sua passividade abjeta diante de um poder que o exclui e avilta, avilta seus salários e o exclui do prazer concebido como clube de privilégios para bem-nascidos e auxiliares bem comportados, pela-sacos.

As elites brasileiras, por sua vez, também têm um medo atávico do povo, vêem esquerdismo perigoso e ganancioso em toda e qualquer ação afirmativa em busca de progresso material e justiça social, atitude só admitida em seus filhos academicamente esquerdistas. Bullshit! Como dizia John Kenneth Galbraith, nada priva mais um homem de sua liberdade do que a falta de dinheiro. É o que o povo quer, ora bolas: dinheiro, vida boa, mesa farta, cama confortável, casa grande.

As ditaduras fizeram apenas por aprofundar o imobilismo mental que nos impede de repensar essas e outras questões cruciais de nossa indigência e dar-lhes o encaminhamento novo que cada homem traz em si ao nascer, sua alegria, sua criatividade, suas esperanças, sua singularidade, enfim.

As ditaduras - todas, desde aquela que implantou a República, passando por aquela que fundou o Brasil moderno, até chegar à mais sangrenta e obsessiva de todas - nada mais fizeram por nós do que senão acoelhar-nos, acordeirar-nos, pacientando o povo como o admirável gado novo de que falava o cantador nordestino, nos tempos em que ainda havia espaço na mídia para utopias ingênuas de redenção e boa-vontade entre os homens.

Este medo e esta paralisia letárgica permanecem sob a estonteante velocidade do dia a dia das metrópoles brasileiras, porque ocupam uma outra dimensão do tempo humano, que é o tempo interno dos indivíduos, e estão na raiz de grande parte de nossas infelicidades pessoais e coletivas, especialmente pelo fato de que falar sobre eles - o medo, a desconfiança, a paralisia - pode atrair ao interlocutor a ira de um inconsciente, individual e coletivo, que não quer mudanças, que não quer luz do sol, que abomina o concurso da inteligência e a renega como uma traição emocional aos valores do coração - o que é uma verdade emocional apenas em parte, mas que no Brasil tem servido à desordem mental galopante e ao descumprimento generalizado da lei como o mais alto valor coletivo a balizar as nossas vidas.

Estamos sempre à espera de um salvador da pátria, um otário de ocasião, bem dizer, que assuma publicamente as nossas responsabilidades coletivas em face de nossas demandas particulares. Essa conta não fecha, é um impasse insuperável que precisa, muito simplesmente, ser posto de lado. Não tem futuro. Mas, está aí, no dia a dia. Firme e forte. Até quando?

Precisamos substituir, urgentemente, o medo pela concentração e a desconfiança pela disciplina, temos nas mãos um país fantástico que desfrutamos pouquíssimo; uma paisagem exuberante, de encantamento, vai sendo ruída por madeireiros irresponsáveis cuja única licença ambiental de que dispõem é o suborno dos funcionários do Estado e a leniência patológica de uma sociedade sem instrumentos legais e aparato de vontade humana para fazer cumprir a lei e dar à felicidade um rosto possível entre os seus cidadãos.

Esse homem acuado, encolhido, pacato, modesto, ingênuo - da dupla sertaneja Canhestro & Tacanho - é o resultado final mais completo e acabado de sucessivos ciclos autoritários - imperiais, militares ou civis - que moldaram a psicologia hereditária do brasileiro médio como a resposta pavloviana de um rato diante da mola e o queijo. O país é o queijo. O poder, a mola.

Todos os dias, por esse país afora, um de nós se levanta em público para repisar, alto e bom som, o que estamos carecas de saber: precisamos educar o povo, só a educação leva à verdadeira compreensão do sentido da lei.

Mas, pouquíssimos são aqueles outros que se levantam para dizer que apenas a liberdade educa, apenas a auto-confiança pode construir de fato uma nação mais solidária, apenas o respeito, que nasce da dignidade e o amor, constitui a ligação social efetiva entre as pessoas; fora disso, é o logro, a tapeação das piores elites e dos manipuladores de ocasião, urubus cujo melhor resultado é a pastagem de nossas misérias, pois se os salários no Brasil não asseguram a dignidade da maioria das famílias, por certo ainda garantem a sobrevivência da maioria das empresas. E em muitas dessas empresas, sempre que podem, escolhem a véspera de Natal para demitir o funcionário! Não é preciso dizer mais nada a respeito de sado-masoquismo social, não?

As realidades históricas e os contextos subjetivos onde prosperam nossas personalidades de nação e de indivíduos são, como não poderiam deixar de ser, realidades complexas e impalpáveis, cujo esforço de decifração ao buril do pensamento anotado nada mais expressa do que a angústia legítima de viver e sobreviver a um tempo.

Essas situações são todas elas invisíveis como a transgressão dos garotos e dos entregadores de bicicleta que sobem na contra-mão a rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Rio, com uma tranqüilidade impressionante no semblante descansado que compartilham com transeuntes desavisados e que não se sabe onde ambos a conseguem tão fartamente, não obstante, vira-e-mexe, um pedestre ou outro acabe atropelado por esse misto de imprudência e desrespeito à lei (afinal, cá pra nós, é mesmo o fim da picada você passante ter de olhar para os dois lados ao atravessar uma pista de mão única).

Embeber a mente em tais percepções ocultas ao quotidiano para daí emergir com o esboço de uma resposta que acalme o coração solitário diante de seu crescente isolamento é muita vez a motivação principal - e única - da escrita, porque, afinal, nenhum de nós se salva sozinho - ensinou Dostoievski -, mas será talvez no interior indevassável do silêncio dos indivíduos que se poderá ouvir uma resposta mínima, porém, promissora, que ponha em movimento a máquina de mudança de que depende esta grande nação para fazer cumprir o seu destino de povo mestiço sobre a face da terra.




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